A. Vidal
Josep A. Vidal
Una vez más la parafernalia del Mundial de fútbol ha prestado oportunamente servicio a la política ayudando a silenciar los ecos de la manifestación del pasado sábado en Barcelona, un acto de afirmación y defensa de la identidad y la dignidad catalanas.
Es fácil decir que la sentencia emitida por el Tribunal Constitucional contra el Estatuto de Cataluña es un despropósito, un disparate, un ataque... Porque lo es, sin duda, al margen de la consideración que merezcan a unos y otros las argumentaciones y contraargumentaciones jurídicas esgrimidas por los miembros del tribunal. Es un despropósito ya desde su origen, pero sobre todo lo es por su desenlace; porque los miembros del Tribunal –que han necesitado cuatro años y toneladas de ridículo para ponerse de acuerdo– han venido a sentenciar que, salvo ellos, nadie en este país es capaz de leer, entender o interpretar adecuadamenta la Constitución española, ni siquiera los juristas, economistas y expertos de todo tipo que participaron en la redacción, el debate y la aprobación del Estatuto de Cataluña. Para los doce miembros del Tribunal Constitucional –uno de ellos fallecido y no sustituido–, todos aquellos juristas y expertos, asesores y políticos que intervinieron en el proceso parlamentario y que –después de mucha discusión, mucho recorte y mucho pacto– consideraron que el Estatuto de Cataluña se ajustaba suficientemente a la Constitución, son, según se ha visto, unos perfectos ignorantes en legislación.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
Resposta de Carlos Loures a Carlos Leça da Veiga
Carlos Leça da Veiga, meu caro amigo:
Parece-me que chegámos àquela encruzilhada em que as nossas respectivas utopias se bifurcam e seguem caminhos diferentes. Vai para 40 anos que nos conhecemos e esta situação ocorre sempre que divergimos (e, pelo menos quando saímos do plano prático, divergimos quase sempre).
Não sei se leste uma carta que, a propósito desta nossa «polémica», o Josep Anton Vidal me endereçou. Ele fazia observações, quanto a mim, muito ponderadas, judiciosas e inteligentes, para mais vindas de um catalão independentista. Destaco esta parte em que, após ter dito que gostaria de ter visto o debate afastar-se dos referenciais históricos, trazer o olhar até ao presente e abri-lo ao futuro, continua: Creo que con demasiada frecuencia las construcciones mentales sobre el pasado, que aportan tanta profundidad a nuestra conciencia como personas y como ciudadanos, están, por otro lado, tan contaminadas de los vicios y defectos del pasado que, en lugar de ser una lente para contemplar el presente y un trampolín para acometer el futuro, se convierten en una losa o una muralla que nos impide ir más allá. Es como si la historia no sólo nos hubiera legado una realidad de facto, con sus cicatrices y con sus heridas aún abiertas, sino también la mentalidad, el punto de vista, el edificio mental que generó esa realidad. Y nos olvidamos de que nuestro tiempo es distinto, que contamos con un edificio mental y de valores con el que no contaban nuestros antepasados. La democracia es una palabra antigua, pero es apenas una noción incipiente, que aún no ha conseguido liberarse, entre nosotros y tal vez tampoco más allá de nosotros, de la carga asfixiante de valores, criterios y argumentos heredada del pasado.
Na minha opinião, a dificuldade em estarmos de acordo tem origem nas lentes com que cada um de nós analisa as situações – tu usas a História como guia, na convicção de que ela se repete e de que é possível utilizá-la na decifração do que nos acontece e na perscrutação daquilo que nos vai acontecer. Conheces a minha metáfora para caracterizar esse método – usar a História como guia, é o mesmo que guiar um carro olhando para o retrovisor.
Parece-me que chegámos àquela encruzilhada em que as nossas respectivas utopias se bifurcam e seguem caminhos diferentes. Vai para 40 anos que nos conhecemos e esta situação ocorre sempre que divergimos (e, pelo menos quando saímos do plano prático, divergimos quase sempre).
Não sei se leste uma carta que, a propósito desta nossa «polémica», o Josep Anton Vidal me endereçou. Ele fazia observações, quanto a mim, muito ponderadas, judiciosas e inteligentes, para mais vindas de um catalão independentista. Destaco esta parte em que, após ter dito que gostaria de ter visto o debate afastar-se dos referenciais históricos, trazer o olhar até ao presente e abri-lo ao futuro, continua: Creo que con demasiada frecuencia las construcciones mentales sobre el pasado, que aportan tanta profundidad a nuestra conciencia como personas y como ciudadanos, están, por otro lado, tan contaminadas de los vicios y defectos del pasado que, en lugar de ser una lente para contemplar el presente y un trampolín para acometer el futuro, se convierten en una losa o una muralla que nos impide ir más allá. Es como si la historia no sólo nos hubiera legado una realidad de facto, con sus cicatrices y con sus heridas aún abiertas, sino también la mentalidad, el punto de vista, el edificio mental que generó esa realidad. Y nos olvidamos de que nuestro tiempo es distinto, que contamos con un edificio mental y de valores con el que no contaban nuestros antepasados. La democracia es una palabra antigua, pero es apenas una noción incipiente, que aún no ha conseguido liberarse, entre nosotros y tal vez tampoco más allá de nosotros, de la carga asfixiante de valores, criterios y argumentos heredada del pasado.
Na minha opinião, a dificuldade em estarmos de acordo tem origem nas lentes com que cada um de nós analisa as situações – tu usas a História como guia, na convicção de que ela se repete e de que é possível utilizá-la na decifração do que nos acontece e na perscrutação daquilo que nos vai acontecer. Conheces a minha metáfora para caracterizar esse método – usar a História como guia, é o mesmo que guiar um carro olhando para o retrovisor.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
A independência da Galiza e a restituição de Olivença (resposta de Carlos Loures a Carlos Leça da Veiga)
Carlos Leça da Veiga, querido amigo:
Hoje tentarei não escrever muito – a última coisa que quero é dar-te cabo da cabeça.
Antes de mais, no que se refere a Olivença, acordo total – território roubado deve ser restituído. A opinião maioritária dos oliventinos é a que for e têm todo o direito de escolher a nacionalidade que preferirem. Mas nasceram em Portugal. Isso não é discutível nem depende dos resultados de eventuais consultas.
No que se refere à Galiza e às outras nações peninsulares oprimidas, que fique bem claro que compartilho o teu desejo de as ver a todas livres de ocupações e de aculturações – a Galiza, o País Basco e a Catalunha (ou os Países Catalães). Penso é que a independência de cada povo tem de ser obra desse povo e que isso obriga, muitas vezes a sacrifícios inauditos. Quando os amigos catalães nos dizem que lhes devemos a independência (por ter sido, em 1640, a Guerra dels Segadors que desviou tropas castelhanas e que desguarnecendo a Portugal, nos permitiu libertar-nos), lembro-lhes que a Guerra da Restauração durou 28 anos. Todos os varões em condições de pegar em armas foram mobilizados, desde crianças com 16 anos até velhos com 70; o bronze dos sinos das igrejas fundido para fabricar canhões. Uma débil economia, canalizada quase inteiramente para o esforço de guerra… Não foi, como dizemos hoje, «pêra doce».
Hoje tentarei não escrever muito – a última coisa que quero é dar-te cabo da cabeça.
Antes de mais, no que se refere a Olivença, acordo total – território roubado deve ser restituído. A opinião maioritária dos oliventinos é a que for e têm todo o direito de escolher a nacionalidade que preferirem. Mas nasceram em Portugal. Isso não é discutível nem depende dos resultados de eventuais consultas.
No que se refere à Galiza e às outras nações peninsulares oprimidas, que fique bem claro que compartilho o teu desejo de as ver a todas livres de ocupações e de aculturações – a Galiza, o País Basco e a Catalunha (ou os Países Catalães). Penso é que a independência de cada povo tem de ser obra desse povo e que isso obriga, muitas vezes a sacrifícios inauditos. Quando os amigos catalães nos dizem que lhes devemos a independência (por ter sido, em 1640, a Guerra dels Segadors que desviou tropas castelhanas e que desguarnecendo a Portugal, nos permitiu libertar-nos), lembro-lhes que a Guerra da Restauração durou 28 anos. Todos os varões em condições de pegar em armas foram mobilizados, desde crianças com 16 anos até velhos com 70; o bronze dos sinos das igrejas fundido para fabricar canhões. Uma débil economia, canalizada quase inteiramente para o esforço de guerra… Não foi, como dizemos hoje, «pêra doce».
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segunda-feira, 14 de junho de 2010
Resposta de Carlos Loures à carta de Carlos Leça da Veiga
Meu caro Leça da Veiga:
Respondo à tua carta de ontem, começando pelo fim, pelo quinto ponto: «Não gostei de ver-me mencionado como alguém que defende uma Independência duns e esquece a dum território que é português e está invadido». E terminas: «Se no meu texto sobre a Galiza não fiz referência a Olivença dever-me-ia ser perguntada a razão e não tirar-se a conclusão duma falta cometida».
Lembro-te que o meu texto não constituía resposta ou contestação ás tuas palavras. Essa contestação, fi-la, oportunamente, em comentário ao teu texto. Aludi a esse texto, em que defendias a independência da Galiza, mas não te acusei de coisa alguma. Falavas da Galiza, não era forçoso falar de Olivença. Usei o teu texto como referência. Disse assim: «Há dias, no Estrolabio, Carlos Leça da Veiga, denunciando que na Europa há colónias, pedia a independência da Galiza. Pois há uma outra pequena colónia - Olivença, terra portuguesa, roubada há mais de 200 anos.». De uma forma geral, as nossas posições quanto a Olivença são coincidentes, pelo que uma grande parte do que dizes é por mim aceite, sem reservas. Quanto à Galiza, penso que devemos deixar aos galegos decidirem sobre a sua independência, se a querem. No que diz respeito aos oliventinos acho que não têm o direito de optar – Nasceram num território roubado; podem escolher a nacionalidade que quiserem, mas o território é português.
Passando a outro ponto, dizes. «é inaceitável falares de Espanha e não de estado espanhol. Uma cedência imprópria dum Democrata!» Ora, quem leia o que escrevo, sabe que essa fórmula «estado espanhol» é a que geralmente utilizo. É verdade que neste texto, usei mais vezes a expressão «Espanha». Não tenho que me justificar – todos utilizamos por vezes a designação: não faz, por exemplo, sentido dizer-se «vou fazer uma viagem ao estado espanhol». Esta tua observação, parece-me um exagero, semelhante ao de alguns crentes, em que as referências à entidade divina têm sempre de ser grafadas com maiúscula – Ele, faça-se a Sua vontade, e por aí fora. Não sou religioso e, portanto, reservo-me o direito de dizer Espanha, Grã-Bretanha, como também dizia Jugoslávia e União Soviética. Porque embora desejasse (e desejo) a sua extinção, esse estados existiam e existem à luz do Direito Internacional. Portanto, mencioná-los é coisa natural. Não me parece que a minha condição de democrata fique em risco. Realidade e utopia devem conviver sem sobressaltos.
Respondo à tua carta de ontem, começando pelo fim, pelo quinto ponto: «Não gostei de ver-me mencionado como alguém que defende uma Independência duns e esquece a dum território que é português e está invadido». E terminas: «Se no meu texto sobre a Galiza não fiz referência a Olivença dever-me-ia ser perguntada a razão e não tirar-se a conclusão duma falta cometida».
Lembro-te que o meu texto não constituía resposta ou contestação ás tuas palavras. Essa contestação, fi-la, oportunamente, em comentário ao teu texto. Aludi a esse texto, em que defendias a independência da Galiza, mas não te acusei de coisa alguma. Falavas da Galiza, não era forçoso falar de Olivença. Usei o teu texto como referência. Disse assim: «Há dias, no Estrolabio, Carlos Leça da Veiga, denunciando que na Europa há colónias, pedia a independência da Galiza. Pois há uma outra pequena colónia - Olivença, terra portuguesa, roubada há mais de 200 anos.». De uma forma geral, as nossas posições quanto a Olivença são coincidentes, pelo que uma grande parte do que dizes é por mim aceite, sem reservas. Quanto à Galiza, penso que devemos deixar aos galegos decidirem sobre a sua independência, se a querem. No que diz respeito aos oliventinos acho que não têm o direito de optar – Nasceram num território roubado; podem escolher a nacionalidade que quiserem, mas o território é português.
Passando a outro ponto, dizes. «é inaceitável falares de Espanha e não de estado espanhol. Uma cedência imprópria dum Democrata!» Ora, quem leia o que escrevo, sabe que essa fórmula «estado espanhol» é a que geralmente utilizo. É verdade que neste texto, usei mais vezes a expressão «Espanha». Não tenho que me justificar – todos utilizamos por vezes a designação: não faz, por exemplo, sentido dizer-se «vou fazer uma viagem ao estado espanhol». Esta tua observação, parece-me um exagero, semelhante ao de alguns crentes, em que as referências à entidade divina têm sempre de ser grafadas com maiúscula – Ele, faça-se a Sua vontade, e por aí fora. Não sou religioso e, portanto, reservo-me o direito de dizer Espanha, Grã-Bretanha, como também dizia Jugoslávia e União Soviética. Porque embora desejasse (e desejo) a sua extinção, esse estados existiam e existem à luz do Direito Internacional. Portanto, mencioná-los é coisa natural. Não me parece que a minha condição de democrata fique em risco. Realidade e utopia devem conviver sem sobressaltos.
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