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domingo, 26 de dezembro de 2010

Ainda a Irlanda, ainda a União Económica e Monetária (2)

(Conclusão)


Marc Roche

(Texto enviado por Júlio Marques Mota)

Nem sabemos por que partitura devemos começar para apresentar Sean FitzPatrick, o homem orquestra deste banco que se tornará em 2007 o primeiro banco do país em termos de capitalização bolsista? Pelas pratos da história atormentada desta terra céltica, pelos címbalos da bolha imobiliária ou pelo violino deste que pretendia enganar o seu destino de contabilista? Este filho de pequeno agricultor, jogador e grande adepto do jogo do rugby na sua juventude, confundir-se-ia.


Com um diploma no bolso de estudos comerciais do University Colégio de Dublim, Sean Fitz Patrick entra em 1976 como tesoureiro para um pequeno banco de negócios, o Irish Bank of Commerce. Passa rapidamente a figura dominante neste banco . No fim de uma série de fusões-aquisições audaciosas, nasce, uma década mais tarde, Anglo Irish Bank na sua forma actual.


A obsessão deste personagem estranho , pequeno em estatura e de sorriso malicioso, era a de alcançar o pelotão da frente. Na ausência de uma rede de balcões não pode fazer forte concorrência aos dois mastodontes locais, Bank of Ireland e Allied Irish Bank, como banco comercial. Sean FitzPatrick atira-se de frente para o sector do imobiliário , ferro de lança da formidável expansão da economia irlandesa. O estabelecimento bancário financia-se junto do mercado interbancário.


Para satisfazer as necessidades dos promotores apressados, o Anglo Irish concede os seus empréstimos em poucas horas enquanto que os seus rivais exigem várias semanas de reflexão. Para este negociador impar com uma moral de aço, só o resultado conta, disposto a sacrificar as verificações habituais . O dinheiro brilha.


O microcosmo de Dublin olha para com ironia para a carreira deste outsider que não quer continuar a sê-lo. Porque Sean Fitz Patrick anda mesmo à procura de respeitabilidade. Este sujeito exuberante por vezes incómoda, “Seanie”, que não actua nem com discrição nem de luvas brancas está totalmente sintonizado com os seus mais fortes clientes , uma dúzia de promotores do imobiliário. “Self-made-men reaccionários, filisteus cúpidos, novos ricos no pior sentido do termo”, martela Frank McDonald, jornalista do Irish Times.


A elite financeira tira-lhe o seu chapéu. Acedendo em 2000 à presidência da associação bancária irlandesa, Sean FitzPatrick torna-se uma das peças soberanas deste famoso triângulo tóxico que compreende banqueiros, profissionais da construção e políticos. O patrão de Anglo Irish Bank joga evidentemente com mestria o jogo dos pequenos truques e das cunhas que são a norma nesta sociedade clânica onde todos se conhecem. Administrador da Dublin Docklands Development Authority, a organização responsável pela renovação dos estaleiros da capital, nomeia o presidente desta instituição para o seu conselho fiscal.


Autoritário, o patrão de Anglo Irish Bank é um adepto do exercício solitário do poder. A direcção oferece-se a si-mesma salários e bónus exorbitantes, vantagens em espécies e em planos de reforma colossais sem sequer informar a Administração . Este decepador de cabeças rebeldes neutraliza os controladores de riscos. A imprensa é silenciada pelos rendimentos em publicidade da bolha imobiliária. Irish Times, o jornal diário de referência, que investiu maciçamente num site de anúncios imobiliários, passa sob silêncio as advertências dos raros peritos que gritam à avisar dos perigos de sobreaquecimento, da bolha..






Luxuosos escritórios de representação são abertos nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Suíça, a fim de financiar grandes obras à Nero. Um departamento de fusões-aquisições, a actividade de cambista, a gestão de tesouraria e um banco privado são assim criados para oferecer toda a gama dos serviços aos promotores. Se tal loucura das grandezas houve, esta foi claramente inspirada e incentivada pela explosão das actividades financeiras . Anglo Irish Bank sonhava simplesmente imitar Goldman Sachs. É de resto o responsável das actividades americanas, David Drumm, que Sean FitzPatrick escolhe, em 2005, para lhe suceder na Direcção-Geral. Um delfim de 38 anos não fará sombra àquele que se tornará o presidente não executivo.


A partir daí, em meados de 2007, a máquina ganha embalagem . Sob o efeito do rebentamento “da bolha”, as cotações na Bolsa caem a pique . Anglo Irish Bank jura alto e bom som que não há fogo no lago e que o Banco sairá das suas dificuldades: Mas o contribuinte deve levar a mão à carteira. Em Dezembro de 2008, Sean FitzPatrick e David Drumm são forçados à demissão.






De um dia para outro, os ídolos dos jovens diplomados irlandeses tornaram-se uma caricatura dos novos ricos . Os grandes conversadores como são as gentes de Dublin diziam mal deles nos pubs com o mesmo ardor com que os elogiavam ainda há pouco tempo antes . Cada um se interroga sobre a atitude incompreensível dos revisores de contas e auditores que não deram nenhum sinal de alarme quando ainda era tempo, sobre a carência das autoridades de tutela que nada foram capazes de prever e enfim sobre a forma ligeira dos políticos que fecharam os olhos .


Sobretudo, um dos mitos fundadores da República do Sudeste ganhou nesta tormenta: o acesso à propriedade. Na National Gallery de Merrion Square, um quadro de Erskine Nicol datado de 1853 mostra uma família de roupa esfarrapada que carrega com os seus magros haveres a lançar um último olhar para a exploração agrícola de que acabam de ser expropriados. “Como a fome e as perseguições, a proibição aos católicos de comprar um bem imobiliário imposta pelo colonizador britânico até 1882 permaneceu no imaginária de um povo durante muito tempo oprimido”, insiste o senador independente David Norris, professor de Literatura comparada.


“A casa de um Irlandês é o seu castelo ”, tinha-se o costume de dizer aquando do triunfo do Tigre céltico, parafraseando a obsessão dos vizinhos britânicos em tornarem-se proprietários. Nestes dias, os muros do Shelbourne Hotel, lugar diariamente frequentado por James Joyce, ressoam com a advertência de Finnegans Wake, um das suas obras-primas: “A casa de um irlandês é o seu caixão“.


(Marc Roche, Anglo Irish Bank - Un scandale irlandais, Le Monde, 19.12.2010 )

















sábado, 25 de dezembro de 2010

Ainda a Irlanda, ainda a União Económica e Monetária (1)

Um texto sobre a Irlanda, sobre a forma como se alimentou a dimensão da bolha, da crise, que agora a maioria de todos nós está a pagar. Viveu-se  e vive-se um período  em que para alguns tudo era ou é  permitido enquanto que a outros tudo  era ou passou agora a ser exigido, é o que texto também mostra. Estranha duplicidade de critérios, marca inegável do neoliberalismo que os governos dos Estados membros da UEM, de direita ou de esquerda apelidados, assim como  a Comissão Europeia tudo fazem para manter. Talvez por  isso ninguém viu, ninguém previu o que aí estava a acontecer, salvo por ironia ou por destino, James Joyce  quandon escreveu: “A casa de um irlandês é o seu caixão“..
Júlio Marques Mota

 Anglo Irish Bank- Um escândalo irlandês
Roche Marc
Como um pequeno banco de retalho criado em 1964  se  transformou  num imenso casino que desmoronou como um castelo de cartas? A História da ascensão e da queda do Banco que é símbolo dos erros  da economia irlandesa. Por Marc Roche
Simon Kelly é um jovem promotor imobiliário irlandês. Antes de ter estar falido, era frequentemente convidado a tomar o pequeno - almoço  com os  emissários do Anglo Irish Bank, o seu principal Banco para obtenção de fundos . O cenário: uma pequena sala do Shelboume Hotel forrado a  tecido almofadado, ao abrigo dos ouvidos  indiscretos. A ementa: ovos mexidos com bacon e chouriço. E também café. Uma primeira cafeteira, depois uma segunda. “Tudo se passava nesta fase da conversa, recorda-se o promotor. Um simples aperto de mão  selava um projecto de várias dezenas de milhões de euros. Anglo Irish Bank financiava, de olhos fechados,  os projectos mais loucos.
Simon Kelly fez destes encontros no velho Hotel  a base  do seu livro, Breakfast with Anglo, consagrado a  maior  falência financeira da verdejante Irlanda . O actual presidente do Anglo Irish Bank, Alan Dukes, terá sem dúvida todo o tempo de  se irritar  ao olhar para as vitrines dos livreiros. Os dias  do seu poder , símbolo dos erros e abusos da forte expansão imobiliária irlandesa entre 1997 e 2007, estão de facto contados.  Face ao falhanço da operação de resgaste financeiro e ao facto das perdas líquidas atingirem  uma profundidade abissal, a União Europeia e o Fundo Monetário internacional exigiram, com efeito,  o encerramento do banco, declarado em falência a 19 de Novembro de 2010, como uma das condições  para a concessão de uma ajuda internacional à Irlanda.
Como o céu de Dublin, Alan Dukes passa do sorriso o mais feliz a  uma tristeza latente: «os antigos dirigentes cometeram o grave erro de se concentrarem num único sector , a construção , violando assim todas as normas de prudência », explica este  ex-ministro da economia que alcançou este seu posto algumas semanas antes do banco ter sido colocado sob a tutela do Estado, em Janeiro de 2009.
O Estado-maior anterior deixou atrás de si o caos. Com a sua chegada, a nova equipa de direcção descobre um sistema gangrenado, cheio de conflitos de interesses e de compromissos . Na  primeira fila estavam  os antigos dirigentes  que encheram bem os seus  bolsos. O anterior presidente, Sean FitzPatrick, tinha uma gestão, no mínimo muito pessoal , como testemunham os empréstimos concedidos de 88 milhões de euros a si-mesmo,  a  título privado e no maior  segredo. Estes fundos foram investidos com associados seus numa  plataforma de exploração petrolífera  na Nigéria, num complexo hoteleiro na  Hungria, num  casino em  Macau. Por seu lado, o director geral, David Drumm, também levantou 8 milhões de euros sem o conhecimento dos outros  para comprar   duas vastas propriedades, uma em Dublin, a outra em Capa Cod, no Massachusetts.
Fazer crer que há  uma riqueza que  não existe e dissimular uma dívida que  existe: ao longo dos anos, a maquilhagem das contas do balanço tinha-se tornado a norma contabilística. Assim, uma instituição  financeira irlandesa que trabalhava sobre hipotecas , uma caixa que trabalhava no imobiliário, emprestou cerca de  7,3 mil milhões de euros através de  incríveis  acrobacias para esconder os prejuízos na véspera da  publicação dos resultados de 2007  do Anglo Irish Bank. Por último, recorrendo a  produtos financeiros sofisticados para confundir  as pistas, o banco financiou em cerca de  28%  o seu aumento de capital com as contas de um grupo de clientes . E isto  será apenas o princípio . Porque até agora, o inquérito da polícia  tem-se defrontado com uma sabotagem  dos códigos informáticos que permitem aceder aos documentos mais comprometedores.  Além disso, os faltosos transferiram os seus activos (casas, automóveis luxuosos, etc.) para as suas  esposas. Como é que uma  pequena sociedade criada em 1964, especializada no seu início no financiamento da compra de material electrodoméstico, se   conseguiu transformar  num imenso casino que se desmoronou como um castelo de cartas ?
(Continua)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O escandalo do salvamento dos bancos irlandeses

Thomas Piketty*

A Irlanda foi primeiramente um milagre que em seguida se transformou num desastre. E que está prestes a tornar-se, agora, num escândalo. É impensável que a União Europeia empreste hoje cerca de 90 mil milhões de euros para salvar os bancos e as finanças públicas irlandeses sem estar a exigir previamente um aumento da taxa de imposição fiscal sobre as sociedades - actualmente de 12,5%, e que deveria ser de pelo menos 25-30%. Primeiro porque os bancos e as outras sociedades implantadas na Irlanda acabarão sempre por voltar a estar em situação de ter lucros, graças ao plano de salvamento europeu. O mínimo que se possa exigir é que estes lucros seja então postos a contribuir de forma significativa. Em seguida, e sobretudo porque as estratégias de desenvolvimento fundadas sobre o dumping fiscal são destinadas ao malogro e nocivas tanto para os países vizinhos como para aqueles que as praticam. Já é mais que tempo para que a UE tome as coisas sob o seu controlo em troca da estabilidade financeira que esta nova posição comportaria realmente.

Em todos os países europeus, os impostos obrigatórios representam pelo menos 30 a 40% do PIB, e permitem financiar um nível elevado de infra-estruturas, de serviços públicos (escolas, hospitais…) e de protecções sociais (desemprego, reformas…). Se os lucros das sociedades são taxados a apenas 12,5%, então nada disto pode funcionar , a não ser se taxarmos muito fortemente o trabalho, o que não é nem justo nem eficaz, e contribui de resto para criar um desemprego elevado na Europa.

Digamo-lo claramente. Deixar que países que se enriqueceram graças ao comércio intra-europeu absorvam em seguida a base fiscal dos seus vizinhos, isto não tem rigorosamente nada a ver com os princípios da economia de mercado ou com o liberalismo. Isto só tem um nome e chama-se : roubo. E ir emprestar dinheiro às pessoas que nos roubaram , sem nada exigir em troca para que isso não se reproduza, a isto chama-se estupidez.

O pior ainda é que o dumping é igualmente nocivo para os pequenos países que o praticam. Certamente, cada país individualmente é metido num engrenagem: como na corrida aos armamentos, os irlandeses têm interesse a manter uma taxa fraca de imposto sobre as sociedades enquanto os polacos, os estónios etc. mantêm a deles. É exactamente por isto que a União Europeia deve pôr fim a este ridículo jogo de soma nula. Pode-se imaginar um imposto sobre as sociedades totalmente europeu, ou um sistema duplo com uma taxa mínima de 25% em cada país, completado com uma sobretaxa europeia de 10%. Deste modo permitiria à UE retomar à sua conta o acréscimo de dívida pública criado pela crise e permitir às finanças públicas nacionais repartirem por um bom caminho.

Uma tal retoma sob controle é ainda mais urgente tanto quanto o dumping contribuiu muito directamente para a bolha irlandesa e para a crise actual. Em especial, o dumping conduziu a manipulações contabilísticas enormes, totalmente artificiais, que tornaram totalmente ilegíveis os balanços bancários e as contas nacionais da Irlanda. Estas estão hoje gravemente poluídas por enormes fluxos de transferência via manipulação de preços (transfer pricing- visando localizar na Irlanda lucros realizados por sucursais baseadas em outros países europeus) de que ninguém conhece o valor exacto. Esta opacidade contabilística tomou proporções ainda mais elevadas que as manipulações gregas sobre as despesas de armamento e sobre o défice público. Nos dois casos, cabe à Europa pôr as coisas em ordem .

Mas com a condição de não se enganar no meio utilizado, no instrumento aplicado. A iniciativa Merkel-Sarkozy que consiste em dar a entender que certas dívidas públicas soberanas não serão reembolsadas integralmente (haircut) não é claramente uma boa ideia. Primeiro porque se quer fazer com que os bancos e os detentores de activos financeiros paguem pelos seus erros, o que é altamente desejável, então vale muito mais ter “um haircut fiscal” (reembolsam-se as dívidas, mas taxam-se os lucros financeiros através de um imposto europeu sobre as sociedades) que “um haircut selvagem” baseado na aposta em falências de Estados e de bancos, processo incerto de que ninguém domina bem para que se saiba quem pagará finalmente as consequências. Em seguida, e sobretudo, porque esta estratégia dos grandes países leva a tornar a criar todo um conjunto de taxas de juro diferenciadas sobre as 27 dívidas soberanas europeias, que fará apenas relançar ainda mais a especulação. Isto poria em causa a própria lógica da moeda única assim como poria em causa o interesse dos pequenos países a nela participarem. É urgente que os dirigentes franceses e alemães [e todos os dirigentes europeus e todas as Instituições da União Europeia ] tenham finalmente a coragem de ter uma visão europeia ambiciosa para se sair da crise actual.

*
Thomas Piketty , director de estudos na EHESS e professor na ’Ecole d’économie de Paris.






( Le scandale du sauvetage des banques irlandaises, Dezembro, 2010.?

domingo, 12 de dezembro de 2010

A crise económica e social, a crise da Europa, a imoralidade dos seus dirigentes, o resultado dos dados estruturais do sistema neoliberal - 1. O salvamento da Irlanda : o escândalo

Arnaud Parient
A Irlanda perdeu a confiança dos mercados devido às suas dificuldades bancárias e a União Europeia e o FMI vieram em seu socorro. Esta intervenção é muito mal sentida na Irlanda, porque põe em causa a soberania nacional, ainda  recentemente alcançada  pela qual muito lutaram, e a que dão muito valor,  e porque parece anunciar uma acentuação da terrível austeridade  que já   está a ser imposta aos Irlandeses. Para além destas reacções compreensíveis, o problema essencial que se põe em todos  os salvamentos bancários, desde o início da crise financeira, é saber quem é que  vai pagar. O acordo que acaba de ser concluído com a Irlanda é deste ponto de vista muito claro e  cada um tem a sua  parte.
O contribuinte vai pagar
Tendo concedido  empréstimos imobiliários muito pouco cuidadosos, os bancos irlandeses não têm dinheiro suficiente  para fazer face os seus compromissos financeiros. Eles já não  podem funcionar normalmente. Duas soluções são possíveis para resolver este problema: um aumento das suas  disponibilidades ( recursos)  ou uma diminuição das suas responsabilidades ( compromissos). - O aumento dos recursos pode  assumir a forma de empréstimos obtidos pelos bancos ou ser obtido através de um aumento de capital. A primeira solução é mais simples, mas apenas tem sentido para resolver um problema transitório (uma crise de liquidez). Por conseguinte não é adaptado à acatual situação dos bancos irlandeses, cujas dificuldades são bem mais profundas. É necessário por conseguinte proceder a um aumento do capital dos bancos, mas os candidatos não se vêem. O Estado irlandês substituiu-se então aos investidores que não estão interessados em investir nestes bancos:  forneceu  capital aos bancos e assim ficou seu accionista. Esta nacionalização, parcial ou total de acordo com os estabelecimentos bancários, foi decidida no início de  2009. Mas, hoje,  são necessárias novas injecções de capital.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Irlanda e Nós

António Sales


O nosso amigo Carlos Mesquita escreveu sobre o caso da economia irlandesa, no artigo “Nós e a Irlanda”, sintetizando as linhas gerais de uma situação que a imprensa portuguesa tem esquecido bastante. Afinal, a corrupção do “Tigre Celta” e a má administração irmanam-se com a nossa permitindo meter ao bolso fortunas que os bancos facilitaram no compadrio com construtores, dinheiro fácil para os consumidores, “sub-prime” para os especuladores e outros, que não o sendo, pensavam fazer bons investimentos de modo fácil, simples e seguro.

Andaram num corrupio a prometer este mundo e o outro de modo a convencer o pagode irlandês que em pouco tempo ficava tudo rico pois até os governos, de pernas abertas, facilitavam os investidores estrangeiros de modo absolutamente liberal.

Um país agrícola apresentava-se, pelo menos em Dublin, com ares de bem vestir, bem comer e bem viver como pude verificar há 10 anos quando lá estive.

Nós aqui, ignorantes, julgávamos que os irlandeses, com rigor e inteligência, tinha conseguido o milagre de um modelo económico de sucesso. Logo, o nosso exemplo era a Irlanda onde, afinal havia outra… verdade escondida e as contas da nação, dos bancos e do crédito andavam todas maradas.

Curiosamente os senhores da EU, que têm por obrigação fiscalizar estas coisas económicas, nunca desconfiaram de nada como não desconfiaram dos gregos, rapaziada que sempre esteve na primeira linha da planificação económica e da disciplina fiscal. Subitamente, aquele pessoal responsável por estas coisas em Bruxelas, séquito de funcionários pagos em ouro de lei, descobriram tudo agora com Portugal e a Espanha no mesmo saco, com razão, diga-se de passagem.

Resolvidos que estejam os desregramentos financeiros destes quatro marginais a EU e o mercado do euro retornarão à paz porque todos os outros (Bélgica, França, Itália, p. ex.) estão bem muito obrigado. Todavia, para acertar algumas agulhas para uma economia real, haverá que fazer mais uns cortes que nos serão impostos de modo a alcançarmos o paraíso.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nós e a Irlanda

Carlos Mesquita


O texto de sábado, de Marc Roche, sobre os bancos Irlandeses serem os responsáveis pela crise do “Tigre Celta”, suscita – me duvidas. Já antes os defensores do modelo económico Irlandês tinham vindo justificar a crise, dizendo que ela nada tinha a ver com as opções de política económica dos governantes; era fruto da gestão imprudente dos banqueiros e gestores financeiros. A minha primeira observação é se esses irresponsáveis apareceram por “geração espontânea”, ou são fruto da doutrina económica dominante nos últimos quase 30 anos. Foram formados para actuar no sistema da liberdade plena de mercado (como todos os que saem das Universidades) e aproveitaram; o governo irlandês acompanhou porque não o fazer era optar por outro modelo económico, e os irlandeses em geral também usufruíram da riqueza virtual, uma vez que o PIB per capita na Irlanda (o dobro do português para metade da população) não correspondia à economia real irlandesa.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Les banques irlandaises sont-elles responsables de la crise ?

Marc Roche
(Londres, correspondant)




Ont-elles été bien contrôlées ?

L'UE a-t-elle trop longtemps fermé les yeux ?

ous les récits consacrés il y a quelques années au Tigre celtique, comme avait été baptisée l'Irlande en raison de ses taux de croissance à l'asiatique, commençaient invariablement par un séduisant paradoxe. Celui de la métamorphose des terres à nu des tourbières en un skyline de tours de verre et d'acier en mouvement perpétuel.

Les élites bancaires se sont trouvées au coeur de la transformation d'une nation rurale et bigote en un prodigieux laboratoire du secteur tertiaire. Mais comme l'atteste la déconfiture économique de l'île d'Emeraude, les « affaires » ont fini par rattraper un monde financier de mèche avec les promoteurs immobiliers et les milieux politiques. Un triangle toxique...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Filme - Ondine - Um Irish puro, sem gelo!

1Luis Moreira

Um pescador pesca nas suas redes uma jovem e bela mulher. O seu canto atrai os peixes e a vontade de viver a um homem alcoólico que tem na filha, doente, a única razão de viver.

Só a criança compreende, dá nome às coisas pouco normais, aceita a verdade ainda que inverosímel, antevê um horizonte menos escuro para todos. E persiste, com a clarividência que só os olhos puros de uma criança são capazes.

As imagens são belas, puras e duras como um wiskie irish, straight, sem água e sem gelo. O mar profundo e cinzento da Irlanda, as suas costas de um verde que se confunde com o mar e com o céu, as sua gentes duras que são capazes de serem felizes neste ambiente hostil e também terrivelmente belo.

Uma história belíssima, pouco habitual, com actores a compor personagens densas e ricas, música e canções trazidas pelas ondas...

Saiam antes da última cena. Até aí tudo é perfeito.