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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Reflexão sobre a serena paisagem da ganância

António Sales




Todos os dias deparamos com situações que conferem às relações sociais um carácter materializado por interesses desprovidos do mínimo de pudor e de carácter. Desde a criminalidade quotidiana em que bandidos vão para casa apesar de vítimas irem para o hospital, aos crimes de colarinho branco em que políticos, empresários, gente bem sucedida, chafurdam em negócios nas off-shores metendo milhões de euros ao bolso com ar tranquilo; os voluntários que ajudam nos mais diversos trabalhos sem pedir nada em troca até que alguém lhes dê um pontapé no cu. A sociedade actual elevou à mais alta potência a mentira, a ingratidão e a hipocrisia, desenvolvendo uma substancial quantidade de anti-corpos cuja missão é anular indivíduos tornando-os seres passivos de umbigo farto.


O sujeito idealista, generoso, pronto a sacrificar prazeres e afirmar a sua personalidade contra hierarquias estabelecidas está reduzido a pó de caca (mesmo dentro dos partidos políticos) se não respeitar normas de elogio e concordância que estabelecem o coro da glória venal. Discordar é blasfémia, recorrer à inteligência do eu (sem maiúscula) é ousadia, mostrar lucidez é vaidade, possuir capacidade de realização acima dos chefes é descaramento. A montanha é mais fácil de subir montado nas costas dos outros do que no esforço de si próprio.


Esta forma pouco recomendável de fazer carreira abençoando os amigos, acolhendo os compadres e pagando os favores leva à “moralização” de um Estado leproso que tudo contamina em nome de uma economia global assente no magnífico milagre do liberalismo das leis do mercado livre. O dinheiro, o poder económico, a do poder político, o cinismo, a majestosa importância da riqueza são factores provocatórios e desumanizantes da sociedade. Tal estado de coisas desperta a intolerância, o egoísmo, o culto individualista no pior sentido do termo.


Orgulho e arrogância colocam as suas máscaras. Escondem-se ambições e hegemonias antigas sob novas aparências. O réptil continua réptil, o imbecil continua imbecil, o oportunista continua oportunista. A mesquinhez humana – mais antiga do que a prostituição – conquista o estatuto da razão que a justifica na malha dos interesses instalados.

domingo, 12 de dezembro de 2010

A crise económica e social, a crise da Europa, a imoralidade dos seus dirigentes, o resultado dos dados estruturais do sistema neoliberal - 1. O salvamento da Irlanda : o escândalo

Arnaud Parient
A Irlanda perdeu a confiança dos mercados devido às suas dificuldades bancárias e a União Europeia e o FMI vieram em seu socorro. Esta intervenção é muito mal sentida na Irlanda, porque põe em causa a soberania nacional, ainda  recentemente alcançada  pela qual muito lutaram, e a que dão muito valor,  e porque parece anunciar uma acentuação da terrível austeridade  que já   está a ser imposta aos Irlandeses. Para além destas reacções compreensíveis, o problema essencial que se põe em todos  os salvamentos bancários, desde o início da crise financeira, é saber quem é que  vai pagar. O acordo que acaba de ser concluído com a Irlanda é deste ponto de vista muito claro e  cada um tem a sua  parte.
O contribuinte vai pagar
Tendo concedido  empréstimos imobiliários muito pouco cuidadosos, os bancos irlandeses não têm dinheiro suficiente  para fazer face os seus compromissos financeiros. Eles já não  podem funcionar normalmente. Duas soluções são possíveis para resolver este problema: um aumento das suas  disponibilidades ( recursos)  ou uma diminuição das suas responsabilidades ( compromissos). - O aumento dos recursos pode  assumir a forma de empréstimos obtidos pelos bancos ou ser obtido através de um aumento de capital. A primeira solução é mais simples, mas apenas tem sentido para resolver um problema transitório (uma crise de liquidez). Por conseguinte não é adaptado à acatual situação dos bancos irlandeses, cujas dificuldades são bem mais profundas. É necessário por conseguinte proceder a um aumento do capital dos bancos, mas os candidatos não se vêem. O Estado irlandês substituiu-se então aos investidores que não estão interessados em investir nestes bancos:  forneceu  capital aos bancos e assim ficou seu accionista. Esta nacionalização, parcial ou total de acordo com os estabelecimentos bancários, foi decidida no início de  2009. Mas, hoje,  são necessárias novas injecções de capital.

domingo, 28 de novembro de 2010

Semana da Economia - Introdução para um debate – A Divida Externa

Carlos Mesquita

A “Divida Externa” passou do vocabulário economista para a preocupação de rua. O cidadão mais cumpridor, que não come fiado nem deve um papo-seco ao padeiro, já anda convencido que deve milhares de euros ao estrangeiro, e que não vai conseguir pagar. Depois tem uma legião de entendidos a explicar-lhe que se não foi ele que fez as dividas, alguém as fez por ele, os malandros do costume de certeza.

Por definição a Divida Externa dum país é o somatório dos empréstimos e financiamentos contraídos no exterior. Portugal é o 6º país europeu mais endividado em relação ao PIB. Com base nas estatísticas do stock da divida bruta externa total (pública e privada), em 2009, à frente de Portugal estão a Suíça e a Bélgica todos na casa dos mais de 200%, o Reino Unido e a Holanda, ambos com mais de 400% e no topo a Irlanda com 1.000 %, e com um PIB ligeiramente inferior ao português (fonte Exame/Expresso).

Em valores absolutos a Espanha (6º país do mundo mais endividado) tem uma divida externa astronómica mas que é “apenas” 168% do seu PIB. A divida bruta relativa da Grécia é semelhante a acreditar que não está manipulada. Os elementos que aparecem habitualmente nas notícias referem a Divida Externa Líquida e a famigerada ultrapassagem dos 100% do PIB, que tem facilitado afirmar que a riqueza do país não é capaz de pagar a divida. Não é para liquidar, ninguém o faz, nem com o rendimento dum ano. Aliás é mais importante o prazo, o curto prazo, que determina as situações de aflição aproveitadas pelos mercados.
A Divida Externa portuguesa é composta segundo o Banco de Portugal, quase meio por meio, pela banca e pelo Estado. Metade é pública metade privada. Os bancos endividam-se para emprestar às famílias e empresas, o Estado para ocorrer às despesas e ao investimento público, central e autárquico.

O dinheiro da Divida contraída é usado pelas famílias na compra de habitação equipamentos e vários consumos, nas empresas para toda a actividade, e no Estado para pagamentos e construção de infra-estruturas e equipamentos sociais. De toda a actividade que o dinheiro pedido emprestado permite, resultam activos, património das famílias das empresas e da sociedade. O dinheiro não é (a maior parte) deitado à rua, existem bens e equipamentos que não era possível obter sem financiamento, quer nas famílias quer no país, a própria actividade económica geradora de riqueza não é viável sem financiamento externo.

O que é preocupante na Divida é a posição que Portugal passou a ter perante os mercados, particularmente após a crise grega. O que os mercados fazem é o mesmo que os bancos aos seus clientes, também eles diferenciam as taxas de juro conforme o tipo de cliente, o que os bancos não fazem, nem os mercados, é emprestar a quem pensam que não vai pagar. A teoria do aumento das taxas de juro conforme o risco, precisa ser desmitificada; os mercados aproveitam a debilidade económica dos países do sul para lucrarem mais. A Alemanha já emitiu dívida pública sem que tenha conseguido procura suficiente para a sua totalidade, enquanto Portugal a cada emissão a procura é várias vezes a oferta, e nem por isso baixa significativamente a taxa. Estamos perante a falência da teoria da oferta e da procura ou diante da máxima capitalista de conseguir o máximo lucro?

Vão ter de se tomar medidas para que os empréstimos externos não sejam desperdiçados em actividades como certo crédito ao consumo, reduzir o ritmo de crescimento da divida, mas o financiamento fundamental para as empresas e para o investimento público em período de contracção do investimento privado não vai poder parar, com risco de não se gerar riqueza que assegure a amortização dos empréstimos e a rentabilidade do país.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Durante a próxima semana debatemos a Economia nacional

Entre o próximo Domingo,28 de Novembro e Sábado, 4 de de Dezembro, promovemos entre os colaboradores e os visitantes do Estrolabio um amplo debate sobre os principais temas da Economia nacional. Começaremos por analisar a Dívida Externa.


Entretanto, brinquemos um pouco. Tristezas não pagam dívidas....



sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PIB – Pressões Internas Burras

Carlos Mesquita

As pressões para que o FMI venha a Portugal, com as suas medidas de austeridade mais gravosas que as do orçamento aprovado para 2011, são mais internas que de fora. Todos os organismos internacionais, incluindo o próprio FMI, consideram que os portugueses são capazes de resolver o problema grave da crise, sem recorrer ao fundo de emergência da União Europeia que trará o FMI. No entanto, a imprensa portuguesa mais relevante, televisões e jornais de referência, continuam a campanha da inevitabilidade de apelarmos ao FMI. Parece estúpido é estúpido; ainda por cima havendo já empresas jornalísticas a dispensar pessoal.

São vários os títulos alarmistas retirados de entrevistas que lidas os contradizem. Estudos como o “Fiscal Monitor” do FMI que considera “as perspectivas orçamentais terem melhorado a um ritmo muito mais rápido que o esperado” e que o Fundo lamenta que os mercados possam estar a sobrestimar o risco de incumprimento dos países problemáticos, deu lugar a títulos como – FMI lamenta a falência “quase certa” de Portugal – o quase certa está entre aspas porque é retirado do estudo, que diz, “a ocorrência de eventos de crédito em algumas economias avançadas é quase certa aos olhos dos mercados” (eventos de crédito são falhas no pagamento), FMI lamenta a falência de Portugal, não está entre aspas porque o FMI não diz nada parecido com isso no estudo, no entanto é título, é manipulação, não se entendem as intenções. Suponho que os jornais no oportunismo de acompanharem presumíveis ventos de mudança na governação, nem se aperceberam que Passos Coelho já mudou de discurso. Ele agora diz “acreditar na capacidade do país para sair da crise” e até considerou importante o crescimento do PIB.

A burrice dos meios de comunicação ficaria com eles se não tivesse influência no comportamento dos portugueses, mas tem como se nota pelos indicadores de confiança quer na procura interna quer no investimento.

Na última sexta-feira o Instituto Nacional de Estatística divulgou que o Produto Interno Bruto (riqueza criada) cresceu no 3º trimestre 0.4% face ao 2º trimestre, e 1,5% face ao mesmo período do ano passado; mas a procura interna, que foi positiva no 2º trimestre, foi negativa no 3º. As campanhas de descrédito feitas em território português por portugueses têm estes efeitos, provavelmente sem a histeria mediática e o medo instigados, poderíamos ter um orçamento para 2011 menos recessivo, com recuperação de emprego e desenvolvimento económico. O aumento das exportações estão a suportar a economia, os outros sectores poderiam pelo menos não estragar o que de bom está aí a ser feito; a começar pelos partidos cuja necessidade de estar em permanente campanha eleitoral só tem trazido dificuldades ao país produtivo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma proposta do Professor Júlio Marques Mota aos economistas

Para uma nova economia

Aqui vai uma proposta de leitura, a ter subjacente uma proposta de assinatura. Que este texto seja ligo com agrado então, e com agradado assinado, é esta a minha intenção . E que se realize! Se assim for, uma cartinha para a colega Manuela Silva, cujo endereço é :
 mmanuela.silva@sapo.pt,

do tipo daquela que aqui deixo.




…………………………………………..

Cara Colega

Faço minhas as vossas palavras, o vosso texto, pelo que aqui estou eu a assiná-lo. Deixo-vos aqui as minhas calorosas felicitações pela iniciativa.

Nome

Júlio Marques Mota

Faculdade de Economia

Universidade de Coimbra

Docente. BI. Nº 00 628046, Arquivo de Coimbra

Com os meus cumprimentos


Uma tomada de posição pública


Apresentamos esta tomada de posição pública no momento em que acaba de ser aprovada a política orçamental para 2011. Como todos reconhecem, as medidas adoptadas têm carácter recessivo. Mesmo que no curto prazo, permitissem conter a especulação financeira sobre a dívida externa e as necessidades de financiamento do Estado e da economia portuguesa, tal política, só por si, não abriria caminho ao indispensável processo de mudanças estruturais de que o País carece para alcançar um desenvolvimento humano e sustentável a prazo. Importa responder no curto prazo visando e construindo o longo prazo.

Reconhecemos que é necessária e urgente uma mudança profunda no paradigma da economia nacional, mas também europeia e mundial. Estamos todos envolvidos na busca de soluções. Os economistas em particular têm a responsabilidade de contribuir para encontrar respostas para os desafios da transição que marcam o mundo contemporâneo e, de modo particular, o nosso País.

A crise tem carácter sistémico e dimensão global, com contornos específicos na Zona Euro, traduzindo-se em maior pobreza, desemprego, crescentes desigualdades de riqueza e rendimento, baixa propensão ao investimento e fraco dinamismo da produção.

Raízes da crise

Presentemente, estão identificadas as raízes dos problemas: a globalização desregulada fruto da imposição de uma ideologia neoliberal que exalta o mercado e subestima o papel do Estado na economia; o predomínio dos interesses financeiros sobre toda a economia; a especulação financeira que
sobrevaloriza objectivos de lucro no curto prazo; o desrespeito por elementares princípios éticos; a desconsideração de objectivos de coesão social e sustentabilidade ambiental; o enfraquecimento do papel dos Estados nacionais sem que se tenham criado mecanismos políticos supranacionais à altura.

A teoria económica permite fundamentar a denúncia de alguns dos falsos pressupostos subjacentes às opções de política económica que originaram a crise. Existe um pensamento económico alternativo que não pode mais continuar bloqueado e passar despercebido dos meios de comunicação social e na opinião pública. Há que abrir espaço a correntes teóricas com propostas diferentes, que precisam de ser debatidas.
Este debate ajudará a descobrir políticas que compatibilizem medidas de curto prazo com estratégias de desenvolvimento a prazo; que promovam o emprego e a valorização do trabalho humano, abdicando de desregulamentações contraproducentes do mercado de trabalho destinadas a transferir custos para os trabalhadores; que levem a economia a produzir bens e serviços que satisfaçam as reais necessidades humanas que reindustrializem garantindo a sustentabilidade ambiental; que combinem eficiência com igualdade substantiva, promovendo a participação motivada de todos; que aproveitem as potencialidades dos mercados e ao mesmo tempo limitem a sua expansão para o campo dos bens e serviços públicos; que assegurem a ética dos negócios; que coloquem o sistema financeiro ao serviço da economia de todos.

As reais dificuldades a nível financeiro, que Portugal e outros países da UE atravessam, têm ditado medidas de aumento regressivo de receitas fiscais e cortes injustos nas despesas públicas, medidas tantas vezes descoordenadas e sem a devida ponderação acerca do seu impacto económico e social no curto, médio e longo prazo. Trata-se de uma visão míope que não avalia as respectivas consequências na economia real e nas condições de vida e de bem-estar das populações ou na coesão social, as quais não raro impedem que se alcancem os próprios objectivos de equilíbrio financeiro visados.

Entendemos que o saneamento das finanças públicas a qualquer custo e, em simultâneo, em diversos países do mesmo espaço económico, é inalcançável e está a sobrepor-se a uma preocupação de justiça social e de relançamento das economias, ao serviço de um desenvolvimento sustentável. A este propósito, não é disfarçável um aproveitamento oportunista por parte de quem defende – sempre defendeu – uma redução do papel regulador do Estado e da prestação de serviços públicos.

Particularmente grave é o que vem sucedendo no âmbito da UE em que políticas orçamentais muito  restritivas são impostas aos países membros sem atender à diversidade das respectivas economias nacionais, numa pura lógica de austeridade, ao mesmo tempo que se dá preferência a medidas de
fortalecimento do sistema financeiro, mas sem a preocupação de o reformar em profundidade, como seria indispensável. A “austeridade”, de que se fala como sendo um valor, esconde interesses de concentração de riqueza e efeitos negativos no desemprego e nas condições de vida dos estratos de população mais vulneráveis.

Sob a aparência de um valor a prosseguir, visa-se a manutenção de uma economia de mercado mal concebida, de matriz neoliberal, que tem como consequência o reforço do poder financeiro e a subordinação da economia aos interesses das oligarquias detentoras desse poder.

As políticas que preconizamos

A presente crise não se resolve com cortes nos salários, pensões ou redução da provisão de bens públicos (saúde, educação, prestações e serviços sociais), nem com maior tributação dos consumos populares e consequente redução do poder de compra dos estratos sociais menos afluentes. Ao invés, as chamadas
“medidas de austeridade”, que vêm sendo preconizadas e, de algum modo, impostas pelas instâncias comunitárias, podem acentuar a crise e contribuir para menor crescimento da economia, mais desemprego e, indirectamente, maior desequilíbrio das contas públicas. Não pode ignorar-se que a crise que se vive na União e em alguns dos países membros é reflexo da crise financeira global e da escalada especulativa que
ainda não terminou e, por conseguinte, enfrentar a crise implica intervenção adequada e coordenada a nível mundial, nomeadamente no que toca à eliminação de paraísos fiscais, tributação fiscal sobre transacções financeiras, aperfeiçoamento das instâncias reguladoras e do funcionamento das empresas de rating, reformas dos sistemas bancários nacionais que assegurem transparência e controlo público do crédito, combatam as acções especulativas e imponham normas de responsabilidade e conduta ética.

Não só no plano global são indispensáveis reformas. Também a nível europeu, há que introduzir reformas profundas que permitam fazer face à vulnerabilidade da zona euro a qual resulta de uma excessiva confiança
posta no mercado como regulador, quando estão em presença economias muito desiguais, com  consequentes desequilíbrios nas relações intra e extra comunitárias.

Os modelos sociais europeus encontram-se sob ameaça e há razões para recear que grupos de interesse venham a fazer pressão no sentido do seu progressivo desmantelamento, forçando a redução dos direitos sociais dos trabalhadores e privatizando serviços de utilidade pública, como sejam os de saúde ou de educação. Uma tal tendência, a concretizar-se, não só constituiria um retrocesso civilizacional como teria como efeito a ainda maior concentração da riqueza e dos rendimentos com consequente risco para a democracia. O modelo social europeu carece de ser aprofundado e ajustado às novas realidades, nomeadamente no que respeita à evolução demográfica, mas nunca desmantelado ou enfraquecido, já que também é a base da possibilidade de economia próspera.

Do Banco Central Europeu espera-se um papel mais activo na ajuda a prestar aos países mais vulneráveis às acções especulativas - impedindo a inaceitável subordinação dos Estados aos mercados financeiros que actualmente se verifica - e na definição de uma política monetária que sirva de motor de crescimento da economia de toda a Zona Euro.

Também defendemos um sistema de tributação progressiva que seja concertado a nível europeu, de modo a evitar disparidades que fazem com que os fluxos económicos corroam as bases fiscais dos Estados. 

Defendemos a existência de uma estratégia de desenvolvimento para toda a UE e uma estreita articulação entre política orçamental e política monetária de modo a enfrentar o desemprego e garantir uma orientação eficiente dos recursos de capital para investimento produtivo e inovação em domínios estratégicos.

No plano da regulação financeira, se é justo esperar que no plano mundial se alcancem indispensáveis formas de regulação mais eficientes, tal não dispensa que no espaço europeu (e nacional) se introduzam normas prudenciais que acautelem devidamente os interesses dos pequenos aforradores e bem assim
se adoptem medidas de prevenção e forte punição de operações dolosas e/ou especulativas.

O combate às desigualdades e à pobreza na UE deverá constar das prioridades das autoridades nacionais e comunitárias responsáveis pela política económica e o princípio da solidariedade subjacente aos tratados deveria levar ao estabelecimento de mínimos sociais e metas quantificadas e calendarizadas de redução da pobreza. Sabemos bem que, não só estão em causa princípios de justiça social, como também a pobreza e grandes desigualdades sociais constituem obstáculo ao próprio crescimento económico.

De igual forma, não é aceitável que, na UE, o número de desempregados seja tão elevado, nem que aumente o número daqueles que estão nessa situação por longos períodos. Os custos daí decorrentes afectam também a economia e constituem perda de recursos.

Uma coordenação eficaz das políticas económicas na UE, assim como a eliminação da rigidez monetária e orçamental da UE (Pacto de Estabilidade e Crescimento) deveriam evitar que, no futuro, o ónus do ajustamento em situação de crise recaísse, como actualmente, essencialmente, sobre os trabalhadores.

No que se refere ao saneamento financeiro, seria desejável que se implementassem sistemas de auditoria permanente às dívidas públicas, mas que aquela fosse complementada com uma vigilância atenta sobre o nível da dívida privada, sabendo-se como esta pesa no desequilíbrio das contas externas.

A auditoria deveria também incidir sobre as parcerias público-privadas, pelo peso que estas representam nos encargos futuros. A crise em que nos encontramos abre caminho a que se equacionem no desenho de futuras estratégias de desenvolvimento as potencialidades de inovação em matéria de economia social e desenvolvimento local bem como se encarem reformas do conceito de empresa, generalizando as
tradições de participação de todos os seus actores na gestão, tal como acontece em muitas economias avançadas, de modo a nela incorporar as exigências que decorrem de uma maior democratização da economia.

Por último, queremos expressar o nosso entendimento de que a responsabilização dos representantes nacionais nos órgãos comunitários, em especial no Parlamento Europeu, e a sua ligação reforçada às instituições democráticas nacionais, deverá permitir uma atempada participação em matéria de política económica e contribuir para afastar o fatalismo que tem prevalecido acerca das decisões de Bruxelas, aceites sem discussão e que tantas vezes têm acarretado efeitos desastrosos.

Sem opções claras de objectivos a atingir no médio e longo prazo, definidos num processo aberto à participação, continuaremos ao sabor de decisões pontuais e descoordenadas, tomadas sob a pressão do momento, vinda quer de entidades externas quer de interesses particulares e outros e que não
constituem garantia de um desenvolvimento humano e sustentável, que responda com equidade às necessidades e aspirações dos nossos concidadãos e concidadãs e salvaguarde o bem comum das gerações futuras.

Novembro 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Caso BPN – Escândalo e impunidade

Luís Rocha


Noticia veiculada via NET:


NOVE-MIL-SETECENTOS-E-DEZ-MILHÕES-DE-EUROS

9 710 539 940,09 EUROS


A burla cometida no BPN não tem precedentes na história de Portugal !!!
O montante do desvio é algo de tão elevado, que só a sua comparação com coisas palpáveis nos pode dar uma ideia da sua grandeza.

Com 9.710.539.940,09 € (NOVE MIL SETECENTOS E DEZ MILHÕES DE EUROS.....) poderíamos:

Comprar 48 aviões Airbus A380 (o maior avião comercial do mundo).
Comprar 16 planteis de futebol iguais ao do Real Madrid.
Construir 7 TGV de Lisboa a Gaia.



Face a mais esta situação gerada pela chamada ganância financeira protegida, não posso deixar de escrever o que penso sobre a especulação dos mercados financeiros

O “Mercado da Bolsa” – A Sinfonia dos mercados financeiros


Não sou um especialista da matéria, mas desde há alguns anos que sigo com alguma atenção as variações, a que os especialistas chamam “volatilidade” dos mercados financeiros, por entender que a sua movimentação é como uma orquestra que segue a batuta do maestro, que tanto pode interpretar uma peça do Impressionista “Claude Debussy” – La Mer, como um adágio de “Piotr Ilich Tchaikovsky” The Sleeping Beauty (Rose Adágio) ou como a Carmen de “Georges Bizet”.

O grande capital financeiro é, agora mais do que nunca, o maestro que comanda o Planeta a seu belo prazer, provocando conflitos sociais/guerras, com a consequente destruição e morte de milhões de pessoas justificando-as como geo-estratégicas, e com o poder divino de decidir quem são os bons e os maus.

Este “maestro” é também responsável pelas alterações climatéricas, com os consequentes cataclismos, que se repetem com maior frequência e cada vez mais devastadores.

Estabeleço assim uma relação entre as tempestades e bonanças dos mercados financeiros e a condução do Planeta pelos mesmos.

A imagem do filme “Titanic” dos músicos a tocar sob a batuta do maestro, no convés do barco que se afunda é bem ilustrativa de como o capitalismo de todo o mundo (independentemente do regime político vigente em cada pais) nos vai dando música, nos momentos mais difíceis (a que chamam CRISE), por ele provocados.

Somos assim (tal como uma orquestra) um conjunto de instrumentos musicais agrupados em secções homogéneas, por famílias de instrumentos.
Sob a batuta do maestro os instrumentos dão expressão às sinfonias escritas nas pautas, respeitando os vários andamentos e as variações em que um tema pode ser transformado, até se tornar uma forma complexa, partindo de um principio muito simples e comum, o de acrescentar a uma composição, novos elementos musicais e ornamentos.

Estas variações, veiculadas pelos meios de comunicação social, propriedade do poder (financeiro/politico), vão inundando a sociedade mundial que conduzem a seu belo prazer, criando eles próprios, através dos mercados financeiros de que são os donos, a condução dos acontecimentos que lhes convém em cada momento:

Conflitos sociais/guerras
Estímulo ao consumo fácil
Cataclismos
Crise
Desemprego
Marginalidade
Impostos
Economia paralela
……….

O Objectivo é sempre o mesmo. A crise provoca danos sociais na maioria e o enriquecimento de quem a provoca, ao ponto de os próprios governos (que o povo elegeu democraticamente!) pagarem o que os controladores dos mercados financeiros provocaram ou seja, estão sempre a ganhar (Caso BPN)

Depois, com o nosso dinheiro, fazem a recuperação do ciclo:
Pseudo/Estabilidade
Emprego
Consumismo/facilitismo
Euforia
Crise
……….

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Não percebo.

Fernando Moreira de Sá


Ele foi o Presidente da República. Ele foi o Primeiro-ministro. Logo, logo o Presidente da Comissão Europeia. A Banca. Os principais “fazedores de opinião”. Todo o cão e gato a quem colocaram um microfone na frente. Directores de jornais. Responsáveis de televisões. Blogues e bloggers. Confesso que foram tantos e tantas que já nem sei se o meu Presidente (estou a falar do FCP) não terá, igualmente, dito o mesmo que a multidão ululante:

“Se o orçamento não é aprovado, estamos tramados, os mercados não nos perdoariam tamanha desfaçatez. Os juros da dívida seriam um “upa, upa”. O caos”.

O PSD fez a vontade, a contragosto, aos seus mais ilustres, aos corporativos, às corporações, à Banca, ao cão e ao gato. Finalmente, o OE2011 foi aprovado. Resultado:

1. Os juros da dívida não param de subir
2. O risco da dívida volta a superar os 400 pontos


Em suma, uns enganadores, é o que é…

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Hábitos Antigos

António Sales




Frencisco de Almeida Grandella
Por volta de 1912 o governo português debatia-se com uma situação financeira desgraçada que obrigava a recorrer ao estrangeiro pedindo empréstimos, a juros altíssimos, para fazer face às despesas correntes. A situação chegou a ser tão degradante que, sobretudo o mercado inglês, exigia a assinatura do comerciante Francisco de Almeida Grandella, como garantia para os empréstimos nacionais, através do património do homem dono de uma fortuna fabulosa. Neste caso o Grandella valia mais que o governo da nação. Nem por isso o país tomou juízo visto que anos mais tarde mandou vir um ditador de Coimbra pôr as finanças em ordem quando os juros da dívida pública já eram superiores às receitas da nação.

Este é um exemplo, entre outros, representativo da incapacidade em governar a nossa casa, que desde a instituição do constitucionalismo assumiu o papel de doença crónica. Após a rebaldaria militar do século XIX, logo que a terra portuguesa entrou num certo sossego, veio a rebaldaria dos partidos fragmentados, governantes marados, eleições manobradas, aristocratas e comerciantes manhosos cativando fortunas através do erário público. Enquanto o povo empobrecia a máquina do Estado engordava com amigalhaços, familiares e correligionários políticos. D. Pedro V, que tivemos a fatalidade de morrer com 25 anos e de lhe suceder o paspalho do irmão D. Luís I, abominava os políticos que, segundo ele, serviam para esmifrar a nação.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Há opções à austeridade?

Carlos Mesquita



É uma história com muitos anos, de tempos a tempos estamos em crise.

Os portugueses ainda não estão (todos) convencidos de que é impossível manter o tipo e nível de vida actual, ou vir a recuperá-lo, sem tomar medidas correctivas que são dolorosas. Disse aqui que achava estranho os nossos parceiros europeus aprovarem medidas económicas restritivas, e nós nada fazermos. É verdade que a culpa é dos políticos e dos seus jogos, mas é justo dizer que os partidos em quem nós votámos e agora culpamos, tiveram 10 milhões (somos 10 milhões?) de cúmplices. Os portugueses estão a ser enganados ou tem sido conveniente viver no engano? Gente que continua a viver bem tece amuos por causa da miséria alheia, mas não prescinde dos privilégios que conseguiu. Qualquer corte nas benesses adquiridas pela faixa da população que decide quem governa, (a base de apoio do “centrão”) provoca ameaça de crise política, e dos lados, à esquerda e à direita, sobrevive-se melhor em crise política.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Os tesos, que sempre foram tesos, não sabem ser ricos


António A. Sales

Todos os dias aparecem na comunicação social uns sujeitos economistas, outros políticos, a predizerem que isto vai ser pior e teremos de apertar mais o cinto. Depois vêm os no activo proclamar que não senhor, as medidas tomadas serão suficientes para atingirmos os 2,8% de défice em 2013. Mas logo avisam, se tiverem de ser prolongadas ou reforçadas tais medidas assim farão. Nada melhor que preparar o pagode para o pior de modo a evitar crises cardíacas.

Podemos estar descansados pois desde que me conheço, e já passei dos setenta, sempre ouvi falar de crise, salvo curtos períodos benéficos para preparar a próxima. Se formos analisar esse novelo das crises nacionais, económicas e financeiras, já em 1850 isto era um taradice e assim por aí fora.

Por isso afirmo que não saberemos viver sem crise. Aviso políticos e economistas para terem cuidadinho não façam muitos cortes no orçamento nem espremam o PREC em demasia pois pode acontecer que, por amaldiçoado acaso do destino, arranjemos um trinta e um de regularizar as contas públicas. Seria maior a tragédia de viver sem crise do que viver com ela. Deixávamos o perigo da bancarrota para entrarmos no da banca recheada. Então, em vez de mantermos o país num equilíbrio instável, arruinado mas decentezinho, transformaríamos isto numa caverna de vadios bem vestidos a gastar à tripa forra o caroço do euro milhões até espatifar tudo novamente.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A crise e a integração europeia


Luís Moreira

Muitas conclusões se tirarão do que se está a passar nestes tempos na UE, mas a mais importante de todas, é que, ou se aprofunda a integração europeia ou o euro e a seguir a UE vão pelo esgoto!

Um dos pressupostos que os políticos Alemães tiveram que oferecer ao povo Alemão em troca do "sim europeu" é que os países teriam que tratar da sua própria casa e não seriam ajudados (leia-se, receber dinheiro) sempre que fizessem asneiras. Isto explica as hesitações da senhora Merkel para além das eleições internas que perdeu .

Ora, esta crise, veio mostrar que estão todos no mesmo barco, o rombo é no barco que escolheram para se juntar, não é possível, sem enormes perigos para as economias dos países mais fortes deixar a Grécia, ou Portugal, ou a Espanha sozinhos, quando a dívida destes países seja atacada por especuladores com a consequente desvalorização do euro, tornando mais dificil o aumento das suas exportações e tornando mais caras as importações.