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sábado, 11 de dezembro de 2010

VerbArte - O Cerco - Sobre as intenções do realizador Richard Brouillette*









Richard Brouillette


O CERCO - Sobre as intenções do realizador Richard Brouillette



Tal como aconteceu para o meu documentário anterior, Assez n’est pas trop (Muito não é suficiente), este filme nasceu de uma revolta.

Inicialmente, era uma revolta contra a derrota do pensamento, ou seja, face à desvalorização da vida com pensamento. A conversão do sistema de educação num sistema de formação profissional teve muito a ver com esta revolta, tal como o aparecimento de uma sociedade onde a informação se tornou rainha, enquanto o desenvolvimento do conhecimento era considerado fora de moda. Uma imagem me guiou, uma gravura de Goya intitulada O sono da razão produz monstros, obtida a partir da série Les caprices.

Depois, um editorial de Ignacio Ramonet, intitulado O pensamento único que apareceu no Le Monde Diplomatique de Janeiro de 1995, fez pouco a pouco o seu caminho na minha cabeça e o objecto da minha revolta alterou-se lentamente, fixando-se, sobretudo, na esclerose do pensamento político — sabendo que tudo é político. Ocupado por uma ideologia dogmática, este pensamento transformou-se em ideia fixa, em obsessão, a obsessão de privar o Estado de todos os seus poderes e, em seguida, de os entregar ao cuidado do mercado que, bem entendido, sabia fazer tudo muito melhor.

domingo, 14 de novembro de 2010

A Democracia em que vivemos -? (III) – Teatro do absurdo

Carlos Loures
Decorrendo em Viana do Castelo o I Congresso do Estado do Teatro em Portugal, lembro a peça “O Rinoceronte”, de Eugène Ionesco (1912-1994). Datada de 1959, vi-a em Lisboa em 1960 representada pela companhia do Luís de Lima. É uma peça do criador do chamado “Teatro do Absurdo”, onde diálogos aparentemente sem nexo (como em “A Cantora careca”), configuram o substrato de uma civilização que vai assumindo aspectos totalmente desconexos, absurdos, por assim dizer. Escrita há meio-século , "O Rinoceronte", continua actual.

Numa cidade até então sossegada, um rinoceronte trota ameaçadoramente pelas as ruas. Na cidade, discute-se a natureza do fenómeno – o que é e como apareceu ali o furioso paquiderme? E, à medida que a peça se desenrola, o comportamento das personagens vai-se alterando, o absurdo de um rinoceronte percorrer a cidade vai sendo aceite como normal. As pessoas vão alterando o comportamento e algumas vão transformando-se em rinocerontes. No final do II acto, com todos à sua volta já metamorfoseados, a personagem central grita: -“Eu sou o último homem. Eu não me rendo!” A história de Ionesco referia-se à eclosão do nazismo, ao colaboracionismo que numa França ocupada pelas tropas hitlerianas levava as pessoas, uma a uma, a ir aceitando como normal a anormalidade que se instalava no quotidiano – as denúncias, as torturas, os campos de concentração, os fuzilamentos…

sábado, 13 de novembro de 2010

A Democracia em que vivemos – o triunfo dos porcos (II)

Carlos Loures




«Se houvesse um povo de deuses, ele se governaria democraticamente. Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos», disse Jean-Jacques Rousseau. Na realidade, a democracia directa, quando da sua primeira formulação  e enquanto participação de todos os cidadãos nas tarefas do Governo, só era concebível dentro das exíguas dimensões geográficas das cidades gregas onde o estatuto de cidadão era atribuído com parcimónia. Ao querer transpor para espaços maiores e com uma abrangência conceptual mais ampla, os senados, os parlamentos, foram a maneira que se encontrou para ultrapassar a impossibilidade de «estar o povo a reunir-se constantemente para tratar da coisa pública». Simbolicamente, o povo reunia-se todo, delegando em representantes a defesa dos seus interesses e pontos de vista.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Democracia em que vivemos - um novo fascismo? (I)

Carlos Loures


Reli recentemente uma nova edição portuguesa de O Contrato Social (Du contrat social ou essai sur la forme de la République), a obra de Jean-Jacques Rousseau, agora com uma interessante introdução de João Lopes Alves. Esta edição não se refere à versão definitiva do texto, publicada em Amesterdão, em 1762, mas sim a uma primeira abordagem do tema, que não é a que melhor conhecemos, por ser a mais divulgada. .Aliás, a edição de Amesterdão tinha um subtítulo diferente – Du contrat social, ou Principes du droit politique. A leitura desta edição conduziu-me à releitura da de Amesterdão que, por sua vez, me levou a uma reflexão sobre a natureza da nossa democracia. O que ressalta da minha leitura de Rousseau são as reservas que ele tinha para com um regime que iria, sobretudo a partir de 1789, nos dois séculos seguintes constituir a principal esperança dos oprimidos.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Romantismo social português: 3 – Herculano

Sílvio Castro



Alexandre Herculano é a primeira grande figura literária inteiramente formada e integrada no Movimento romântico. O seu romantismo é total, pois envolve o autor em todas as suas manifestações e criações. Em Herculano, desde a mocidade, a expressão romântica tem a capacidade de traduzir tanto a mais recôndita, ainda que sempre muito ponderada, subjetividade lírica, quanto a mais ousada participação pública.

Filho dos tempos de grandes turbamentos porque passa a vida nacional, a estes dedica a mais profunda participação cívica e neles se incorpora para uma sempre atenta defesa das liberdades individuais e públicas.

Envolvido desde a mocidade nas lutas sociais de seu país, cedo realiza a experiência de um exílio que se faz mais difícil pelas limitadas condições materiais vindas das origens do muito moço Herculano. Inicialmente refugia-se na Inglaterra, mas ali não encontra o melhor correspondente aos seus sonhos de crescimento geral. Na França, logo em seguida procurada, ao contrário encontrará o refúgio positivamente desejado. Em contacto com a cultura francesa em plena efervecência romântica, Herculano saberá edificar a sua própria estrutura.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 95 e 96 (José Brandão)


Liberalismo, Socialismo, Republicanismo

(antologia de pensamento político português)


Joel Serrão

Livros Horizonte, 1979

Duas hipóteses se nos apresentavam quanto ao modo de fazer esta antologia: o respeito exclusivo pela seriação cronológica dos autores seleccionados e dos respectivos escritos, ou a tentativa de explicitar os núcleos fundamentais e sucessivos da temática e problemática políticas portuguesas no período a que este volume respeita: da instauração do liberalismo (1820) à crise do republicanismo (cerca de 1920).

Preferimos a última hipótese, que se nos afigurou mais apta a revelar o devir do pensamento cujos momentos mais significativos buscámos caracterizar e sumariar.

Para uma complementar e mais exacta situação temporal, todos os autores seleccionados são referidos pela ordem cronológica do nascimento nas notas bibliográficas que lhes são consagradas, no fim do volume.


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A Lição da Democracia

(Oitenta e Oito Anos de República em Portugal)

Caetano Beirão

Lisboa, 1922


Oitenta e oito anos de republica em Portugal?! – Poderá parecer ousada esta afirmação, mas não o é, se atendermos ao que se pretende designar pela palavra «republica».

Deixemos o seu significado etimológico; tomemo-la no seu sentido moderno, isto é, no de «regime político que se contrapõem a monarquia». Se monarquia é a organização do Estado em que governa «um só», em que há um poder supremo que concentra o poder politico, exercido por um órgão a que vulgarmente se chama «a realeza», em contraposição, república é o regime em que não existe esse poder supremo e em que, consequentemente, o poder político não está centralizado num órgão forte que exerça essa função.

Se atentarmos na realidade dos factos, vemos que esta definição é perfeitamente verdadeira.

Nas repúblicas o poder político é exercido pelo parlamento…

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Discurso

António Sales



Há gente intensamente faladora, de tudo e de nada formam assunto de conversa e assim sustentam o tempo com eles e com os outros. Fui a antítese do palavreado de algibeira sobretudo porque a minha natureza era mais de ouvir que falar. Quero dizer, desde novo apresentei um sujeito sisudo o que nem sempre facilitava em termos de simpatia.

Quando coloco esta situação distancio-me do significado intelectual das conversas. Não é preciso falarmos de filosofia, política, economia, ambiente ou saúde para produzirmos uma conversa interessante. Também o futebol, automóveis, gajas, gajos, vestidos, sapatos e namoros são temas para aliviar o pesadelo dos dias. Contudo, é bom não esquecer que um grupo não exclui o outro porque ambos são necessários para a higiene da mente.

As coisas têm, todavia, piorado. No primeiro grupo os temas tornaram-se repetitivos e de uma confrangedora incapacidade de renovação e comunicação com as pessoas. Perdidos os ideais que vinham do século passado parece que ficámos à toa numa espécie de vazio temático de uma nova filosofia política para o futuro capaz de agregar uma parte do pensamento colectivo para o século XXI. Deste modo, o segundo grupo tornou-se elemento “intelectual” por excelência, cativando as massas, nivelando a mediocridade do pensamento, liberalizando a asneira, recorrendo à frivolidade mesquinha mas tão querida que substituí a critica racional pela fofoca pessoal.

Este estado “conspirativo” da matéria não é apenas português. Com a globalização foi se espalhando pelo mundo como o HIV, mas sem tratamento nem vacinas, passando a um estado de pandemia que vai estendendo os seus tentáculos sobre os diversos povos, amolecendo, com o bem-estar, o sistema imunitário dos aborígenes.

Dado o nosso convívio de séculos com a desgraça e a ignorância, não desejamos outra coisa se não sermos dirigidos por cérebros cujo grande desígnio nacional será conseguir um trivial nível de vida de modo a garantir uma reforma suficiente para podermos, na velhice, jogar às cartas no jardim da terra.

À medida que o tempo se consome sinto-me com menos pachorra para prestar atenção a dislates normalmente folclóricos e aflitivamente banais. Não avaidade que toma conta da minha consciência mas a fadiga de ouvir repetidamente o mesmo palavreado discursivo que afirma o que não executa e executa o que não afirma. Estou farto, sobretudo, da conversa política em que o tritão canta a ópera e as sereias fazem coro para atrair os peixinhos. A ópera é sempre a mesma e eu encontro-me exaurido para conversas de barbeiros e cabeleireiras.

Prefiro olhar o que me rodeia com um palito entre os dentes. Observar os outros neste imenso palco onde nos cruzamos a interpretar papéis geralmente obscenos. Quieto, percebo melhor os caprichos do tempo que vai substituindo ideais pelo novo egoísmo neo-liberal. A idade vai-me roubando o futuro mas a falta de um forte sentimento colectivo para esta Nação também ajuda pelo que das duas não sei qual a mais dolorosa.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Social-Democracia . O que há de melhor?

Luís Moreira

O liberalismo que se afunda em desigualdades e que defende a "lei da selva" a lei do mais forte? Cada um por si? Ou o socialismo, aprisionado em Estados omnipresentes e omnipotentes, criadores de elites que se perpetuam no aparelho de Estado e que não consegue responder às justificadas ambições de melhor níveis de vida das populaçõs?

A social democracia não representa o futuro ideal se calhar nem o passado ideal mas não conhecemos nada que se lhe aproxime.O consenso social do após guerra representa o maior avanço social a que o mundo já assistiu, pela mão da democracia cristã, pelo conservadorismo britânico e alemão e a social democracia nórdica.Nunca a história assistiu a tamanho progresso, nunca tantos experimentaram tantas oportunidades de vida.

Mas o perigo espreita, com a admiração acrítica do mercado livre, o desdém pelo sector público a ilusão pelo crescimento eterno. Até aos anos 70 todas as sociedades europeias se tornaram menos desiguais, graças aos impostos progressivos, aos subsídios dos governos aos mais pobres os extremos de pobreza foram-se apagando.Nos últimos 30 anos deitamos tudo isso fora.

Adam Smith volta a ser citado: " nenhuma sociedade será verdadeiramente florescente e feliz se uma grande parte dos seus cidadãos for pobre e miserável" Sem segurança, sem confiança, as sociedades ocidentais ameaçam ruir. A insegurança alimenta o medo.E o medo -da mudança,medo do declínio, medo do desconhecido- corrói a confiança e a indepedência nas quais assentam as sociedades civis do Ocidente.

Essa rede de segurança social contra a insegurança foi uma das maioras conquistas do sistema, restaurando o orgulho dos perdedores do sistema, trazendo-os para dentro dele e não virando-lhe as costas.Então o que falhou? A esquerda moderada continua a criticar, nostálgica das revoltas dos anos 60, sem apresentar qualquer alternativa consistente, abrindo brechas por onde entraram o individualismo feroz,a proletarização e fragmentação do colarinho branco. As maiores críticas à social democracia, que teve como maior vitória a igualdade, a liberdade e uma maior prosperidade,são comprovadamente falsas, como se verifica pela capacidade revelada em sustentar economicamente todo o sistema.
PS: com Tony Judt - o regresso ao estado providência.

domingo, 16 de maio de 2010

Manuel Fernandes Laranjeira



António Sales

O homem só chega à verdade pelo caminho da dúvida, escreveu Manuel Laranjeira no artigo “Mocidade Idealista”. Eis como é diferente a filosofia deste pensador do início do século XX de políticos portugueses do início do século XXI. O neo-liberalismo económico e globalização parecem guardar em si todas as virtudes como se tudo já tivesse sido pensado, dito e experimentado. Essa infalibilidade não tem sido uma característica dos portugueses que viveram (e vivem) na dúvida das suas capacidades e qualidades. Salvo casos de afirmativa personalidade de quem “raramente se engana e nunca [tem] dúvidas” ou, como Salazar afirmou num discurso de posse na Sala do Risco, “Sei muito bem o que quero e para onde vou”, o português é dotado de constantes interrogações sobre a sua energia e firmeza em desafiar o futuro.

Foi este o caso do escritor Manuel Fernandes Laranjeira, idealista marcado pelos choques com a realidade, sobretudo com a realidade triste de Portugal, característica dessa época (mas alguma vez a realidade portuguesa deixou de ser triste?). Indivíduo carregado de dúvidas sobre as quais reflectiu com lucidez e inteligência em muitos dos seus escritos, porque o idealismo não o impediu de ser um ensaísta dotado de lógica analítica. Todavia, sobre muitas dessas dúvidas não chegou à verdade, nem podia já que um século depois ainda persistem. E das verdades a que chegou foram bastantes as cruéis que espalharam a viscosa baba do desencanto.

Manuel Laranjeira é um dos escritores que melhor representa o pessimismo lusitano do início do século XX, cuja correspondência com os amigos é bem mais estimulante de ler do que o Diário Intimo. Por aqui vagueia o tédio epicurista, o seu permanente descontentamento face à vida traduzido na indolência nata de um sentimento próximo da tragédia. Ao “Diário” não escapa, como a Pessoa não escapou muitos anos mais tarde, a sensaboria medíocre do seu romance com Augusta que terá contribuído para o seu estado depressivo até porque com as mulheres tinha tendência para o chinelo.

D. Miguel Unamuno, amigo de Laranjeira e por aquele admirado, encontrou nele um representante do que chamou a “alma trágica” de Portugal representada pelo suicídio de alguns dos nossos intelectuais. Aos 27 anos, já depois de terminado o seu curso de medicina, o autor de “Dor Surda” fala da “angústia suicidária”. Essa angústia não o impede de desenvolver uma dramaturgia social (“Amanhã” e “Às Feras”), todavia dolorosa, e o ensaio em termos de uma lógica analítica capaz de colocar de lado aspectos sentimentais. Vive uma sucessão de amores frustrados e a amargura da solidão profunda e perversa é também potenciada pela componente física de um acumular de doenças fatais, como a sífilis medular e a tuberculose de que morre uma irmã e um irmão. Os acontecimentos da sua vida encaminham a sua personalidade literária e de pensador para um decadentismo romântico que viria a contribuir para a tragédia suicida muitas vezes sugerida na sua correspondência aos amigos. Não foi exclusivamente a angústia da sua indiscutível personalidade psicótica a culpada mas também o desencanto e a dor espiritual e física. Sofreu por si e por quanto ia assistindo à sua volta. A sua alma sensível habitava um corpo solitário minado pelo tédio e pela descrença de um homem que “sente um desânimo infinito”.
No Outono de 1911 agrava-se o estado de saúde do escritor acentuando todo o conjunto de dúvidas verdadeiras e verdades duvidosas que acabam por levá-lo ao suicídio, dando um tiro na cabeça aos 33 anos, nas areias da praia de Espinho, no dia 22 de Fevereiro de 1912. Nascera a 17 de Agosto de 1877 no lugar de Vergada, freguesia de S. Martinho de Moselos, Vila da Feira.


Consulta: “Obras de Manuel de Oliveira” – I e II volumes – Edições Asa (Porto) – Abril 1993