Sílvio Castro
A 1ª. edição do livro de Agostinho Neto, Sagrada Esperança, União dos Escritores Angolanos, Luanda, 1977 tem a força de inauguração dos novos tempos derivados dos grandes fatos de 1974 e que abria igualmente novos horizontes para a gente angolana, mesmo dentro dos horrendos fantasmas trazidos pela guerra civil que tão longamente a atormentará ainda. Nos poemas de Agostinho Neto, impregnados de grande humanidade e de ampla participação com a vida de sua gente e de seu país, corria todo um frêmito de denúncias, mas igualmente de esperanças.
Os poemas de Sagrada Esperança, de certo modo, tivera um aparecimento anterior à histórica edição de Luanda-77, isso com a tradução italiana de Joyce Lussu, Con occhi asciutti, Il Saggiatore, Milão, 1963. Porém, apesar da importância da operação da grande ativista cultural que foi Joyce Lussu, a sua operação não deve ser considerada como o primeiro aparecimento da poesia do poeta angolano. Tudo isso porque, a intelectual italiana tem um conceito de tradução que pode ser considerado discutível, e mais ainda porque trabalhou os textos de Agostinho Neto partindo de uma experiência pouco comum: devido às prisões do lider angolano, a tradutora italiana tem possibilidade de receber os poemas somente por via indireta, isto é, pelas mãos da mulher de Agostinho Neto que recolhia e copiava os poemas ditado a memória pelo poeta condicionado pela violência de seu isolamento nos cárceres salazarista.
À edição de 1977, logo sucede uma 2ª. edição de Sagrada Esperança, a da Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1979. Alguns anos depois, com a plena ação de Agostinho Neto como lider de seu país, aparece a edição brasileira da Editora Ática, São Paulo, 1985.
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domingo, 21 de novembro de 2010
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Evento da Literatura Brasileira - A Carta de Pero Vaz de Caminha sobre a Descoberta do Brasil
Sílvio Castro
O documento evidentemente real, a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita de 22 de abril a 1º de maio de 1500, enviada logo no dia seguinte a Lisboa, ao destinatário venturoso, D. Manuel, mais que um documento é um marco crucial para duas realidades ainda virtuais, a cultura e a literatura do Brasil, que imediatamente depois e a partir do evento fazem-se reais.
Ainda que saída do silêncio dos Arquivos da Torre do Tombo ao primeiro conhecimento das gentes somente no final do século XVIII, confinada que fora pela rigorosa regra do “segredo”, própria da política diplomática da Monarquia portuguesa das grandes descobertas; ainda que publicada pela primeira vez somente em 1817 pelo Pe. Manuel Aires do Casal na sua Corografia Brazílica ou Relação Histórico-Geográfica do Brasil, pela Imprensa Régia, Rio de Janeiro, a quase mágica Carta desde a sua chegada a Lisboa com a nave de Gaspar de Lemos, de retorno do Novo Mundo descoberto, passa a circular, divulgando as maravilhas que somente a partir de então o mundo começaria a conhecer. Assim acontece com a remessa das cartas de D. Manuel aos seus primos, os Soberanos de Castela, e ao Papa romano, mas igualmente através das revelações de uma outra grande potência diplomática, a veneziana, que quase tudo sabia e tudo revelava. As primeiras criações da linguagem literária brasileira, presentes na obra-prima do humanista Caminha, criações tradutoras de novas cores, luzes, perfumes, humanidade, começam assim a correr mundo.

A revelação do Brasil pela Carta de Caminha cria todo um roteiro de magia para a nova terra. As palavras do escrivão português, as primeiras palavras da literatura brasileira, revelam como que um futuro incondicional para a realidade brasileira que principia o seu percurso de realidade. A terra é cheia de graça e a consciência naturalista nasce a partir do gozo de seus ares e águas. É uma visão do paraíso, onde não importa se em verdade exista ouro ou prata ou pedras preciosas. Já a felicidade simples dos sentidos esclarece aos homens que o paraíso existe. E que nele tudo será possível.
“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até
outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte léguas por costa. A terra é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa.
A terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho (...) As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem
...................
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.“
O evento do texto de Caminha nos guiou na elaboração de um inédita metodologia para a historiografia literária brasileira e com ela definimos um método que coloca o início da literatura nacional do Brasil com o advento do grande marco perovaziano, coincidindo assim cronologicamente a história literária com a história sócio-política (S. Castro et alii, História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 2000).
O documento evidentemente real, a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita de 22 de abril a 1º de maio de 1500, enviada logo no dia seguinte a Lisboa, ao destinatário venturoso, D. Manuel, mais que um documento é um marco crucial para duas realidades ainda virtuais, a cultura e a literatura do Brasil, que imediatamente depois e a partir do evento fazem-se reais.
Ainda que saída do silêncio dos Arquivos da Torre do Tombo ao primeiro conhecimento das gentes somente no final do século XVIII, confinada que fora pela rigorosa regra do “segredo”, própria da política diplomática da Monarquia portuguesa das grandes descobertas; ainda que publicada pela primeira vez somente em 1817 pelo Pe. Manuel Aires do Casal na sua Corografia Brazílica ou Relação Histórico-Geográfica do Brasil, pela Imprensa Régia, Rio de Janeiro, a quase mágica Carta desde a sua chegada a Lisboa com a nave de Gaspar de Lemos, de retorno do Novo Mundo descoberto, passa a circular, divulgando as maravilhas que somente a partir de então o mundo começaria a conhecer. Assim acontece com a remessa das cartas de D. Manuel aos seus primos, os Soberanos de Castela, e ao Papa romano, mas igualmente através das revelações de uma outra grande potência diplomática, a veneziana, que quase tudo sabia e tudo revelava. As primeiras criações da linguagem literária brasileira, presentes na obra-prima do humanista Caminha, criações tradutoras de novas cores, luzes, perfumes, humanidade, começam assim a correr mundo.

A revelação do Brasil pela Carta de Caminha cria todo um roteiro de magia para a nova terra. As palavras do escrivão português, as primeiras palavras da literatura brasileira, revelam como que um futuro incondicional para a realidade brasileira que principia o seu percurso de realidade. A terra é cheia de graça e a consciência naturalista nasce a partir do gozo de seus ares e águas. É uma visão do paraíso, onde não importa se em verdade exista ouro ou prata ou pedras preciosas. Já a felicidade simples dos sentidos esclarece aos homens que o paraíso existe. E que nele tudo será possível.
“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até
outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte léguas por costa. A terra é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa.
A terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho (...) As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem
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O evento do texto de Caminha nos guiou na elaboração de um inédita metodologia para a historiografia literária brasileira e com ela definimos um método que coloca o início da literatura nacional do Brasil com o advento do grande marco perovaziano, coincidindo assim cronologicamente a história literária com a história sócio-política (S. Castro et alii, História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 2000).
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 15 - por Sílvio Castr
(Continuação)
O crime de Afonso Ribeiro
Eu não queria; não era nas minhas intenções. Mas sinto que devo contar tudo a Vossa Senhoria que me permitiu, escutando-me com tanta bondade e sabedoria, saber sempre mais ainda das minhas coisas. Por isso vou contar pela primeira vez, talvez até para mim mesmo, a razão da minha perdição e porque o meu Senhor e Soberano me tirou para sempre da terra de minha mãe, condenando-me a não saber por certo aonde estou.
O meu foi um grande crime, ainda que resultado do amor que sempre tive pelo meu Senhor e Protetor, o nobre Sebastião Telo e por sua família. Nela entrara muito jovem deixando minha doce mãe e a minha terra amada. Muito cresci sob a infinita bondade do meu Protetor. Ele me ensinou tudo e logo fui feito seu pagem. Muitas vezes saímos de seu magnífico Palácio por Portugal e Espanhas, sendo o meu Senhor o mais amado de seus embaixadores pelo Rei.
Assim cheguei aos vinte anos, feliz e certo da vida.
Comigo cresceu, quase que paralelamente, Costança, a filha menor do meu Protetor. Ela era radiosa nos seus dezesseis anos. Bela, bondosa, gentil com todos. Parecia uma flor e o seu perfume. Não sabendo e não querendo, descobri o meu amor por Costança. Mas o mantinha escondido no mais profundo do meu coração.
O crime de Afonso Ribeiro
Eu não queria; não era nas minhas intenções. Mas sinto que devo contar tudo a Vossa Senhoria que me permitiu, escutando-me com tanta bondade e sabedoria, saber sempre mais ainda das minhas coisas. Por isso vou contar pela primeira vez, talvez até para mim mesmo, a razão da minha perdição e porque o meu Senhor e Soberano me tirou para sempre da terra de minha mãe, condenando-me a não saber por certo aonde estou.
O meu foi um grande crime, ainda que resultado do amor que sempre tive pelo meu Senhor e Protetor, o nobre Sebastião Telo e por sua família. Nela entrara muito jovem deixando minha doce mãe e a minha terra amada. Muito cresci sob a infinita bondade do meu Protetor. Ele me ensinou tudo e logo fui feito seu pagem. Muitas vezes saímos de seu magnífico Palácio por Portugal e Espanhas, sendo o meu Senhor o mais amado de seus embaixadores pelo Rei.
Assim cheguei aos vinte anos, feliz e certo da vida.
Comigo cresceu, quase que paralelamente, Costança, a filha menor do meu Protetor. Ela era radiosa nos seus dezesseis anos. Bela, bondosa, gentil com todos. Parecia uma flor e o seu perfume. Não sabendo e não querendo, descobri o meu amor por Costança. Mas o mantinha escondido no mais profundo do meu coração.
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sábado, 23 de outubro de 2010
Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 12 - por Sílvio Castr
(Continuação)
Tainá II
Coaracy foi e tem sido o meu grande mestre no conhecimento da língua. Porém, desejo que Vossa Senhoria que me escuta com tanta atenção saiba que Tainá foi quem me fez sentir como participante vivo com a nova voz que desde então me quero dar. Não sei bem como explicar o que digo, mas vou tentar.
Desde aquele dia mágico em que eu me uni diretamente com Tainá nas águas frias do nosso rio, ela passou a ser para mim fonte de revelações. Naquele encontro, como já contei, de certa maneira superei com ela as angústias sobre o meu corpo e o dos outros. Vendo-a e a tomando para mim, compreendi o que antes não sabia sobre o corpo da mulher. Repito ainda uma vez a Vossa Senhoria que aqueles momentos foram como encontrar-me comigo mesmo, com alguém que eu sabia existir, mas não identificava.
Tainá II
Coaracy foi e tem sido o meu grande mestre no conhecimento da língua. Porém, desejo que Vossa Senhoria que me escuta com tanta atenção saiba que Tainá foi quem me fez sentir como participante vivo com a nova voz que desde então me quero dar. Não sei bem como explicar o que digo, mas vou tentar.
Desde aquele dia mágico em que eu me uni diretamente com Tainá nas águas frias do nosso rio, ela passou a ser para mim fonte de revelações. Naquele encontro, como já contei, de certa maneira superei com ela as angústias sobre o meu corpo e o dos outros. Vendo-a e a tomando para mim, compreendi o que antes não sabia sobre o corpo da mulher. Repito ainda uma vez a Vossa Senhoria que aqueles momentos foram como encontrar-me comigo mesmo, com alguém que eu sabia existir, mas não identificava.
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 10 - por Sílvio Castro
(Continuação)
Tainá I
Como Vossa Senhoria já deve ter podido observar, a gente daqui a cada momento entra nos rios ou no mar para banhar-se. Não só os jovens, mas também os velhos e principalmente as crianças.
Tomar banhos, além de ser sempre festa, parece ser também a maneira que têm para manter a pele continuadamente fresca e bela. Os banhos fazem com que todos fiquem mais coloridos e se estão pintados, como muitas vezes acontece com homens e mulheres, ficam mais belos ainda nas várias cores que usam. O vermelho que se distingue do bronzeado natural deles se mostra então vermelho rutilante. O violeta usado pelas mulheres jovens toma matizes que parecem muitas cores numa só. E o preto que os homens gostam muito de aproximar ao vermelho se faz talvez a mais bela cor que exista. Crianças, homens e mulheres passam horas e horas a nadar em meio aos cantos dos pássaros e ao calor do sol.
Tainá I
Como Vossa Senhoria já deve ter podido observar, a gente daqui a cada momento entra nos rios ou no mar para banhar-se. Não só os jovens, mas também os velhos e principalmente as crianças.
Tomar banhos, além de ser sempre festa, parece ser também a maneira que têm para manter a pele continuadamente fresca e bela. Os banhos fazem com que todos fiquem mais coloridos e se estão pintados, como muitas vezes acontece com homens e mulheres, ficam mais belos ainda nas várias cores que usam. O vermelho que se distingue do bronzeado natural deles se mostra então vermelho rutilante. O violeta usado pelas mulheres jovens toma matizes que parecem muitas cores numa só. E o preto que os homens gostam muito de aproximar ao vermelho se faz talvez a mais bela cor que exista. Crianças, homens e mulheres passam horas e horas a nadar em meio aos cantos dos pássaros e ao calor do sol.
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domingo, 17 de outubro de 2010
Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 6 - por Sílvio Castro
(Continuação)
Quero confessar a Vossa Senhoria uma coisa que me inquieta. Uma coisa importante. Até agora eu não sabia que era assim, que sentia assim, mas agora sei. Me parece que isto seja o conto, foi o conto que de certo tirou de dentro de mim e me esclareceu este meu certo sentimento. Desde que vos estou contando as minhas estórias passei a compreender essas coisas escondidas que agora vos tento revelar.
Este meu novo mundo desde logo me incutiu um grande medo. Não era, depois de um primeiro momento de indecisão, o medo de sofrer dores, violências. De morrer. Em verdade a minha vida me parecia tão miserável que a morte era pouca coisa diante dela. Era um outro medo. Tudo me era desconhecido e ao mesmo tempo se revelava com clareza espantosa a cada momento. Tudo me parecia como que a perda do que eu era, e quanto mais eu entrava no contacto e no conhecimento das coisas e da gente, mais me sentia perdido. Mesmo quando a bondade de Coaracy procurava ligar-me a tudo aquilo que era o contrário da minha vida, mesmo assim a cada momento mais se fazia indefinido o meu dia, o meu ver, escutar, gostar, o meu ser todo. Eu agora sei que me confrontava a cada dia com as novas coisas e me atormentava porque ao mesmo tempo queria e não queria participar delas. Me encontrava com a gente, e não queria, como queria, conhecê-las, estar com elas. Mais ainda era silenciosa a dor quando aquele mundo parecia de repente, por tantas suas coisas, se transformar dentro de mim numa adesão.
Quero confessar a Vossa Senhoria uma coisa que me inquieta. Uma coisa importante. Até agora eu não sabia que era assim, que sentia assim, mas agora sei. Me parece que isto seja o conto, foi o conto que de certo tirou de dentro de mim e me esclareceu este meu certo sentimento. Desde que vos estou contando as minhas estórias passei a compreender essas coisas escondidas que agora vos tento revelar.
Este meu novo mundo desde logo me incutiu um grande medo. Não era, depois de um primeiro momento de indecisão, o medo de sofrer dores, violências. De morrer. Em verdade a minha vida me parecia tão miserável que a morte era pouca coisa diante dela. Era um outro medo. Tudo me era desconhecido e ao mesmo tempo se revelava com clareza espantosa a cada momento. Tudo me parecia como que a perda do que eu era, e quanto mais eu entrava no contacto e no conhecimento das coisas e da gente, mais me sentia perdido. Mesmo quando a bondade de Coaracy procurava ligar-me a tudo aquilo que era o contrário da minha vida, mesmo assim a cada momento mais se fazia indefinido o meu dia, o meu ver, escutar, gostar, o meu ser todo. Eu agora sei que me confrontava a cada dia com as novas coisas e me atormentava porque ao mesmo tempo queria e não queria participar delas. Me encontrava com a gente, e não queria, como queria, conhecê-las, estar com elas. Mais ainda era silenciosa a dor quando aquele mundo parecia de repente, por tantas suas coisas, se transformar dentro de mim numa adesão.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 4 - por Sílvio Castro
Bem, agora posso de novo contar tudo com clareza a Vossa Senhoria. Já não me sinto na grande confusão de antes. A viagem continua, o medo do naufrágio continua. Vossa Senhoria acredita possível o naufrágio para um que está na terra e não no mar? Quero confessar um coisa muito absurda, eu me sinto como um náufrago na terra. Me debato com as coisas e não consigo tocar a praia. Meu corpo exausto se consome e eu não sei onde chegar. Mas de certa maneira desde aquele primeiro dia de contacto com a gente nova e a terra, me sinto mais sereno, não que o tremor me haja abandonado ou o medo do desconhecido, desaparecido. Mas‚ como se tudo se tivesse transformado em um sonho, medo e tremor, esperanças e inseguranças, desconcertos e encontros.
O nobre Pedro Álvares Cabral nos levou, no dia seguinte, numa grande procissão pela nova terra achada. Éramos uma multidão, com o grande Comandante à frente, nas mãos a Cruz de Cristo. O Comandante, os doze capitães, os sacerdotes, os nobres do séguito, a gente toda, caminhávamos por aquelas praias.
O nobre Pedro Álvares Cabral nos levou, no dia seguinte, numa grande procissão pela nova terra achada. Éramos uma multidão, com o grande Comandante à frente, nas mãos a Cruz de Cristo. O Comandante, os doze capitães, os sacerdotes, os nobres do séguito, a gente toda, caminhávamos por aquelas praias.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Fotopoemas - Viagem no silêncio
Poema de Sílvio Castro e
Fotografia de José Magalhães
Quanto mais corro
paro
fixo
fico
no silêncio circundante
a minha corrida incurante;
se fujo
fico
fixo no silêncio ambulante;
mais corro
mais me fixo no silêncio;
mais corro
mais viajo no espaço
infindável da corrida
somente espaços
do silêncio.
Fotografia de José Magalhães
Quanto mais corro
paro
fixo
fico
no silêncio circundante
a minha corrida incurante;
se fujo
fico
fixo no silêncio ambulante;
mais corro
mais me fixo no silêncio;
mais corro
mais viajo no espaço
infindável da corrida
somente espaços
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 2 - por Sílvio Castro
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domingo, 1 de agosto de 2010
Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 1
A minha terra era longe dali, no restante do mundo.
João Guimarães Rosa
Navegar, minha amada e infeliz filha, é poder num só momento viver tantos momentos; estar presente ao que se assiste e às lembranças; sentir e pressentir, chegar e esperar. O mar é este gentil caminho que nos leva em todas as direções e nos envolve como um manto. Navegar é estar sozinho sem solidão. Por isso te recordo, minha Maria, neste mar e nesta terra nova, e quero contar-te todas as andanças que me acompanham. Sei que te sentes sempre triste com a tua existência incompreendida, e quero alegrar-te um pouco e estar contigo em nossa casa. Então, pensei, escreverei para minha Maria todas as comoções das minhas viagens e as revelações delas. Para ela falarei de tudo que vivo e descubro, assim mesmo como farei para o meu Rei e meu Senhor. Já lá se vão tantos dias de minha partida, mas começarei hoje, como me ordenou meu Comandante. Quando daqui a dias a nave de Gaspar de Lemos retornar a Lisboa e nós continuaremos para as Índias, junto com a carta para El-Rei, irá também este diário para Maria. Nele, Maria, te contarei tudo. Começo hoje. Mas parto daquele primeiro dia em Belém. Assim, muitas coisas que te direi serão puras lembranças. Outras, verdades.
João Guimarães Rosa
Navegar, minha amada e infeliz filha, é poder num só momento viver tantos momentos; estar presente ao que se assiste e às lembranças; sentir e pressentir, chegar e esperar. O mar é este gentil caminho que nos leva em todas as direções e nos envolve como um manto. Navegar é estar sozinho sem solidão. Por isso te recordo, minha Maria, neste mar e nesta terra nova, e quero contar-te todas as andanças que me acompanham. Sei que te sentes sempre triste com a tua existência incompreendida, e quero alegrar-te um pouco e estar contigo em nossa casa. Então, pensei, escreverei para minha Maria todas as comoções das minhas viagens e as revelações delas. Para ela falarei de tudo que vivo e descubro, assim mesmo como farei para o meu Rei e meu Senhor. Já lá se vão tantos dias de minha partida, mas começarei hoje, como me ordenou meu Comandante. Quando daqui a dias a nave de Gaspar de Lemos retornar a Lisboa e nós continuaremos para as Índias, junto com a carta para El-Rei, irá também este diário para Maria. Nele, Maria, te contarei tudo. Começo hoje. Mas parto daquele primeiro dia em Belém. Assim, muitas coisas que te direi serão puras lembranças. Outras, verdades.
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sábado, 15 de maio de 2010
Italo Calvino nos 25 anos da morte

Sílvio Castro
A figura de Calvino no quadro literário italiano do Novecentos se apresenta como referência essencial e como marco de criatividade poética. Através de uma obra marcada por evidente modernidade, em consonância com os pontos que definem as experiências revolucionárias que transformaram não só a literatura, mas praticamente todas as expressões culturais do século XX, ele se coloca possivelmente como o escritor italiano mais universal de seu tempo.
Até mesmo as suas origens como que preanunciam a sua futura personalidade universal. Nascido em Cuba, em Santiago de Las Vegas, nas vizinhanças de Havana, aos 15 de outubro de 1923, filho de um pai da Ligúria, agrônomo de profissão, e de uma mãe sarda, doutora em ciências sociais, Calvino certamente absorveu da infância as influências de um ambiente familiar embebido de preocupações e atividades científicas. Seu pai chega a Cuba, onde permanece por três anos, depois de vinte no México. Sua mãe, pesquisadora científica num tempo em que as italianas ainda não gozavam dos plenos direitos civis e políticos, viveu sempre dedicada à sua formação científica e deu aos filhos, em particular a Calvino, o exemplo de uma personalidade forte e rigorosa. O futuro escritor, homem de empenho político e social, parte dessas características familiares, bem como de sua fortuita, mas marcante experiência pessoal de um nascimento na América Latina. Calvino se sentirá sempre muito preso à cultura latino-americana, não só àquela de língua espanhola, mas igualmente à brasileira. Conhecida era a sua particular admiração por Jorge Amado.
Retornado com a família em Itália em 1925, com ela se instala naquela Ligúria do pai, precisamente em São Remo. A paisagem do mar lígure, das grandes colinas e da longa costa de sua terra de formação, estará presente em muitos de seus livros. Sua mocidade ele a passa nos tempos difíceis do fascismo, nunca inteiramente aceito pela maioria dos lígures, e se prepara para participar das lutas pela extinção do regime. Apenas terminado o curso universitário em Letras, em comunhão com os ideais que a partir de 8 de setembro de 1943 lutam pela redemocratização da Itália, o jovem Calvino adere à Resistência e terminada a guerra se inscreve no Partido Comunista Italiano do qual se demitirá em 1956, depois da invasão soviética da Hungria. Em 1º de agosto de 1957, numa carta aberta a L’Unità, jornal do PCI e no qual desde há muito colaborava, dirigindo a página cultural, ele concluia a exposição dos motivos de seu ato e de sua vontade de não dever partecipar de uma discussão estatutária prevista para casos semelhantes:
“Desejo que, dado o espírito ponderado dessas minhas demissões, que me fossem evitados os colóquios previstos pelo Estatuto, que não fariam senão inclinar a serenidade dessa minha despedida. Peço-vos de publicar esta carta em L’Unità para que assim o meu comportamento apareça claro aos meus companheiros, aos amigos, aos adversários. Desejo enviar uma saudação àqueles companheiros que nos seus setores de trabalho lutam para afirmar justos princípios, e também àqueles mais distantes de minhas posições aos quais respeito como combatentes anciãos e valorosos, e ao qual respeito dou o máximo valor, apesar das nossas opiniões divergentes; e a todos companheiros trabalhadores, à parte melhor do povo italiano, dos quais continuarei a considerar-me o companheiro.”
O espírito de militante independente foi sempre uma característica do homem Calvino no percurso de seus sessenta e dois anos de vida.
De sua obra vão recordados os momentos culminantes, começando com a trilogia plena de fantasia criativa de “I nostri antenati”, com os excepcionais Il visconte dimezzato (1952), Il barone rampante (’57), Il cavaliere inesistente (’59). Em 1963, Marcovaldo ovvero Le stagioni in città, que trata justamente um dos temas, aquele urbano, mais caros à modernidade de Calvino. A respeito da relação entre o homem e o universo urbano, ele teve a dizer: “De uma cidade não gozes as sete ou setenta maravilhas, mas a resposta que dá a uma tua pergunta.” Do ano 1964 são as Cosmicomiche; de 1972 as fantásticas Le città invisibili e do ano seguinte, Il castello dei destini incrociati; de 1979, Se una notte d’inverno un viaggiatore, para chegar até a experiência da ficção científica com Palomare, de 1983.
Alguns anos atrás um editor brasileiro me convidou a fazer a tradução da “Obra Completa”, de Calvino, que ele estava por publicar. Não pude aceitar o convite em face de meus empenhos de pesquisa e didatica na Universidade italiana, pelos meus muitos trabalhos em via de conclusão ou em projetos, bem como porque não me reconhecia como um tradutor profissional. Para compensar uma frustração que jamais superei completamente em razão daquela resposta negativa, hoje proponho junto a este artigo, antecipador dos vinte e cinco anos da morte de Calvino – 19 de setembro de 1985 – a tradução de um dos seus contos presentes no volume Racconti, de 1958, justamente aquele de título “L’avventura di due sposi”, que nos mostra um Calvino politicamente militante, mas independente e principalmente um grande criador literário.
Desejo concluir este meu testemunho em homenagem aos vinte e cinco anos da morte de Italo Calvino reafirmando o quanto ele tivesse em consideração as literaturas de língua portuguesa, em modo especial aquela brasileira. Como clara demonstração de uma tal atenção reproduzo no original, com a correspondente minha tradução, uma carta que diz da troca de idéias que tive oportunidade de manter com ele sobre a produção literária de nossos autores. Desde os primeiros anos de minha experiência italiana, sempre em curso, procurei falar constantemene com os mais representativos operadores editoriais da Itália, como testemunho no meu volume de 1993, Trenta anni di portoghese a Padova e a Venezia. Calvino colaborou intensamente com a editora Einaudi, ali introduzido por Cesare Pavese, um dos responsáveis editoriais da Editora, e nela foi por muito tempo programador da política editorial. A carta abaixo que aqui publico pela primeira vez está assinada por Paolo Fossati, diretor editorial:
Torino, 4 marzo 1969
Professor
Silvio Castro
Fondamenta de Ca’ Bernardo 2196
S. Polo
V e n e z i a
Gentile Professore,
La ringrazio anche a nome di Calvino, che mi ha passato la Sua lettera, per le proposte che fà alla nostra casa editrice.
In particolare per ciò che concerne i due poeti brasiliani, di cui però vorremo farci un’idea più precisa. Lei potrebbe, in via preliminare a una nostra decisione, farci avere una cartella crítica di presentazione dei due e qualche traduzione Sua dei medesimi? Con questo materiale in mano potremo decidere.
Circa il Pavese: noi non ci interessiamo di sollecitare o collocare edizioni dei nostri escritori presso altri editori, e non ho quindi possibilità di proporre il Suo lavoro.
Lei può seguire la via inversa rivolgendosi alle case editrici interessate. Mi sembra l’unica soluzione pratica.
Gradisca un cordiale saluto
(Paolo Fossati)
(Muito gentil Professor,
Agradeço-lhe também em nome de Calvino, que me passou a sua carta, pelas propostas que nela faz à nossa casa editora.
Em particular pelo que se refere aos dois poetas brasileiros, dos quais porém que queremos ter uma idéia mais precisa. Poderia o senhor, em via preliminar a uma nossa decisão, fornece-nos uma página crítica de apresentação dos dois e algumas traduções suas dos mesmos? Com este material em mãos poderemos decidir.
Quanto a Pavese: nós não nos interessamos de solicitar ou colocar edições de nossos escritores junto a outros editores, e de consequência, portanto, não tenho possibilidade de propor o seu trabalho.
O senhor pode seguir a via inversa, contactando as editoras interessadas. Parece-me que seja esta a única solução prática.
Queira aceitar uma cordial saudação
(Paolo Fossati)
Tudo o que foi pedido por Fossati foi feito. Os dois poetas em questão eram Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Quanto a questão Pavese, certamente houve uma possível confusão por parte do responsável editorial de Einaudi em relação aos meus termos na carta que enviei a Calvino. Em verdade eu indagava, começando a trabalhar na tradução das “Poesias Completas” de Cesare Pavese, como estava a questão da venda de direitos da mesma para a área da língua portuguesa. Isso em face do problema ainda vigente hoje de direitos vendidos a editoras portuguesas para toda a nossa área linguística, com evidente dificuldades para os editores brasileiros. Logicamente eu, no momento em que considerasse concluído o trabalho da minha tradução, trataria diretamente com os editores brasileiros interessados. Mas a tradução entrou pelos anos. Agora está pronta, com uma longa apresentação crítica. Dentro em pouco farei propostas aos editores que fossem interessados à poesia de Pavese. Assim, essa será a minha segunda tradução de poetas italianos contemporâneos, depois da primeira, dos “Poemas Escolhidos de Quasímodo”, publicada pela editora Globo de Porto Alegre. A edição da minha tradução da poesia de Pavese será também, da minha parte, mais uma homenagem a Calvino, tendo em vista a grande amizade que o unia ao poeta de Lavorare stanca.
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